4 04UTC Novembro 04UTC 2009

Do outro lado do Oceano

Sempre tenho a impressão que estou a viver num universo pararelo. A vida parou no Brasil. Nada acontece por lá. Até porque, quando eu voltar, tudo vai estar da exata maneira como deixei. Aliás, minha mãe sempre diz ao telefone que está tudo igual. Meus pais não compraram nada novo para a casa – talvez a pintura tenha sido refeita, mas isso é apenas um detalhe -, minha irmã insiste em não saber o que vestir para ir a aula, as amigas falam que Porto Alegre continua uma merda, ninguém casou, divorciou ou teve filhos. Mas acho que isso não funciona exatamente desta maneira.

Lembro quando um amigo não muito próximo foi morar em Londres há dois anos. Ele me dizia no msn que não tinha medo sobre o que poderia acontecer no Brasil enquanto ele estivesse fora. “Tudo fica no lugar em que deixamos. Somos nós quem mudamos”, repeti ele com alguma frequência. Quando não nos apegamos aos detalhes ou nos valemos de uma pequena observação sobre nossa “vida antiga”, talvez isso faça sentido e nada se passe de fato. Apesar de que, nem grandes mudanças – no sentido literal da palavra – são capazes de impedir certos acontecimentos.

Quando chove, a avenida Goethe, ao lado do Parcão, ainda deve alagar. O buteco ao lado do Opinião ainda deve vender a cerveja mais barata da Cidade Baixa. Em dezembro, o Papai Noel vai cumprimentar as crianças no shopping Iguatemi. As aulas irão acabar no final de novembro. Minha família viajará para Panambi nas festas de final de ano.

Apesar disso, meu aniversário será comemorado na Europa. Sem Krystal, Duda, Japa, Maira ou Amanda. Já não tenho mais carro próprio quando retornar. A Krystal não estará mais morando no Jardim Planalto. O Edu vai ter se formado em Publicidade. O William agora vive no Rio de Janeiro. Mais do que isso! Às vezes é preciso dar exemplos para nós mesmos entendermos nossas próprias idéias. Como eu já disse em posts anteriores, o que vale nessa vida são os encontros. As pessoas são a chave de tudo. Os lugares… Ah! Esses sempre ficam do mesmo jeito, caso não haja nenhum projeto de planejamento urbano em pauta.

Enfim, eu disse tudo isso só para expressar o sentimento, cujo o qual não sei definir, que sinto no momento. As pessoas passam por nossa vida em alta velocidade, mas sempre deixam uma marca. Digo isso, especialmente ao lembrar de meus amigos da escola. Insisto em dizer que nenhum deles me restou, mas acho que minto para mim mesma. Eles ainda estão no meu entorno, e eu sempre sei – ou tenho uma vaga idéia – do que estão fazendo da vida.

Posso afirmar que quando crianças fazemos amigos realmente verdadeiros. Não há interesses ou vantagens. Às vezes não há reciprocidade. Crianças conseguem ser boas mesmo quando ruins. Debocham uns dos outros, mas, no fundo, gostam-se. Não convidei meus ex-colegas de escola para meus últimos aniversários ou para minha formatura. Porém, eles estiveram, de certa maneira, sempre lá.

Na semana passada fiquei sabendo que um ex-colega está fazendo quimioterapia. Apesar de ser meu dever, como jornalista, de me informar sobre esse tipo de fato para repassá-lo com mais exatidão e detalhes, creio que não esteja apta para tanto no momento. Ainda estou em choque. Não consigo imaginar o porquê de certas coisas acontecerem. Mas ainda instigo em meu íntimo que tudo tem um sentido. Nada nunca é ao acaso.

Mesmo que eu estivesse por perto, talvez não pudesse fazer nada. Digo isso, porque não entendo direito como funciona esse esquema de amizade. Seu melhor amigo sempre vai ser seu melhor amigo mesmo que seu melhor amigo mude? Só sei que, graças a Deus, amizade é mais do que casamento ou namoro. É o melhor dos relacionamentos. Por isso, eu ainda acho que ele é uma das pessoas que mais considero na vida, pois, a certa altura de minha infância/adolescência, o foi.

Do outro lado do Oceano, neste momento, tem gente nascendo, escovando os dentes, acordando, indo pro trabalho, morrendo, discutindo, se amando, chorando, rezando e cantando. Aqui também. Porque somos todos pessoas feitas da mesma porcaria. A diferença é que ainda não consegui conhecer os 6,5 bilhões de habitantes da Terra para perceber todas as pequenas mudanças que acontecem nos hábitos de cada um deles diariamente.

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O outro lado fica depois de toda essa água!

26 26UTC Outubro 26UTC 2009

De novo não!

É um pesadelo. O maior de todos. Daqueles que me tira o sono, se estou acordada assistindo a aulas chatas. O que não me deixa dormir, quando encosto a cabeça no travesseiro a noite. Não quero voltar pro Brasil. Sai de lá para encontrar alguma coisa que, com toda a certeza do mundo, perdi em outro lugar. Não lá. Nunca lá. Até porque, depois de passar 22 anos procurando e nada achar, é mais inteligente começar a pesquisar em outros lugares.

15 15UTC Outubro 15UTC 2009

Pequena grande cidade

Bratislava tem ares de vilarejo. Porém, a casa do presidente, os castelos antigos e o aeroporto a validam como capital da Eslováquia. Tudo é velho e bonito ao mesmo. Bem cuidado, conservado. Creio que a parte sul da ex-Tchecoslováquia force uma ocidentalização para parecer cada vez menos com a Europa do leste.

Até a tampa do bueiro é fofa!

Até a tampa do bueiro é fofa!

A Eslováquia implantou o euro em janeiro de 2009. Ao contrário da irmã República Tcheca e das vizinhas Polônia e Hungria, os eslovacos se bandeiam casa vez mais para o oeste. Mesmo com a moeda da União Européia, os preços são ridículos, e dá vontade de comprar tudo, principalmente comida. Até 1992, Eslováquia e República Tcheca formavam um só país. A língua em ambos é parecida – é como o português brasileiro e o de Portugal. As pessoas, fisicamente, também.

O turismo aflora no local. Prova disso é o bem organizado escritório de informações turísticas, os panfletos e mapas distribuídos – super bem feitos com papel de alta qualidade -, bem como os diversos grupos guiados que transitam pela zona central. Bratislava tem slogan, e ele está por todos os lugares: “The little big city”. Isto define tudo.

Eu (coraçãozinho) o coração da Europa :)

Eu (coraçãozinho) o coração da Europa :)

Wegue-Wegue

O combinado era encontrar meu amigo Karol na ala de desembarque do aeroporto. Não demorou muito para eu perceber que ele não estava em quaisquer das dependências do local. O aeroporto de Bratislava é como a cidade: na medida certa. Dez minutos de espera, e o polonês apareceu.

Seguimos para a estação de trem, onde troquei de roupa, escovei os dentes e lavei o rosto. Decidimos seguir para Viena só no fim da tarde, então teríamos pelo menos oito horas de sightseeing. O mais importante mesmo era dançar Wegue Wegue – música angolana famosa em Portugal – o tempo todo. Para mim e Kelly Xu, minha amiga, esse é o hino bratislavense por algum motivo desconhecido.

A maioria das cidades da Europa Central – ou do Leste, como alguns dizem – é composta pelos mesmos elementos. A old town, uma catedral, diversas igrejas, estátuas que contam história, chafarizes e ruas de paralelepípedo. Além, é claro, das marcas de bala deixadas pelos alemães e russos nas paredes.

Mas nem tudo são flores...

Mas nem tudo são flores...

Em Bratislava não tem muito o que se ver. O rio Danúbio corta a cidade em duas. É o mesmo que passa por Viena. Entre as pontes, uma chama mais atenção. De ferro, combina perfeitamente com o lugar. Tudo é um pouco cinza, pois a ponte também. Os fios metálicos dão um ar de modernidade a esta que, com certeza, é o cartão postal mais admirado da cidade.

Para conhecer a pequenina capital não se precisa de mapa. Basta chegar ao centro e caminhar aleatoriamente. Dessa forma, se visita tudo. É instintivo. Monumentos, parques, História antiga e moderna, avenidas ou ruelas, gente com ar de leste, pessoal cosmopolita, a casa do presidente… até o Mc Donalds e a Ikea pelo caminho. Aliás, o Mc Donalds tem preços incríveis. Dois hamburgeres tipo Mc Duplo + batata e refrigerante médio por 2,99 euro. Preço bem menor do que os 4,75 euro cobrados pelo menu normal em Portugal, por exemplo.

A Casa Branca eslovaca

A Casa Branca eslovaca

O castelo não é nada demais, mas a subida até lá vale a pena. Ruas em curvas constantes, estreitinhas e sem calçada. Divertido também sentar na beira da rodovia e enxergar dezenas de Ladas e Škodas ou então entrar no supermercado para comprar Coca-cola e sair com uma Kofola.

Kofola é praticamente um símbolo tchecoslovaco. Motivo de orgulho da população, não ouse criticar. Fale mal da cerveja, mas não fale do refrigerante que lembra Pepsi Twist sem gás – e é bom demais! Viciante, eu arriscaria dizer. A comida eslava também vicia. Tudo é feito com porco, repolho, batata e muito molho. Eles têm diversos tipos de queijo também.

O que eu faço agora sem Kofola em Portugal?

O que eu faço agora sem Kofola em Portugal?

Eu e Karol comemos em um restaurante antes de partir para Viena. Nosso almoço-barra-janta foi coisa fina. Clientes de terno e gravata, senhoras de idade bebendo chá e eu sem banho desde que sai da Espanha (peguei conexão em Milão depois de Barcelona). A refeição custou sete euros, e eu aposto que aquele deve ser um dos comedouros mais caros da cidade.

Dica válida: Quando estiver com sede, não confunda voda com vodca!

Dica válida: Quando estiver com sede, não confunda voda com vodca!

5 05UTC Outubro 05UTC 2009

¡Vale tudo!

Em Barcelona é permitido andar pelado. Seja na areia praia ou no meio da rua, ninguém irá pedir para colocar a roupa. Diz a lenda, que a cidade mudou completamente após as Olimpíadas de 92. O metro foi ampliado, as ruas revitalizadas e o caldeirão turístico começou a ferver.

Pode-se andar nu, mas é proibido beber na rua. A venda de bebidas também é ilegal. Apesar disso, milhões de latinhas ornam qualquer paralelepípedo da zona central. Os ambulantes oferecem aos gritos “cola, fanta, cerveza” e sussurram “haxixe, marijuana”. Se há sinal de polícia, todos somem, e os produtos são armazenados nos bueiros.

Por dentro da cidade

A Sagrada Família continua em construção. Vale a pena ir ao portão fotografar, as dizem que pagar os €8 de entrada é tolice.

Um dia acabam! Reza a lenda, no próximo século...

Um dia acabam! Reza a lenda, no próximo século...

Painel do lado da Sagrada Família. Tem que fazer piada mesmo...

Painel do lado da Sagrada Família. Tem que fazer piada mesmo...

O Park Güell decepciona. A areia no chão lembra um deserto e levanta poeira. Os lendários bancos de Gaudí tornam-se pequenos na imensa clareia pela qual se estendem. Parece que falta alguma coisa. Vai ver é porque ele faleceu antes de acabar o trabalho. Apesar disso, os azulejos recortados reluzem. A mistura de cores é perfeita, pois parece calculada. Azul, amarelo, verde, laranja e branco na medida certa.

Os famosos azulejos de Gaudí

Os famosos azulejos de Gaudí

Todos querem meter a mão na boca do lagarto, logo na entrada. A água atrai as peles secas, que suam com os úmidos 30 e poucos graus. Uma dica válida é entrar por trás do Parque, parando na estação de Valcarca. Dessa forma, poupa-se o trabalho de subir uma lomba de 1 km, pois algum santo homem construiu escadas rolantes para evitar a fadiga.

Em La Rambla tem de tudo. Camelô, artistas de rua – Ronaldinho treina embaixadinhas lá todos os dias -, prostitutas que puxam possíveis clientes pelo braço, terraças, promoters distribuindo flyers e gente. Muita gente. Nos dois sentidos da calçada, por todos os lados e de todos os idiomas.

Portvell é apenas uma cambada de lanchas estacionadas. Os mastros brancos reunidos formam um bom cenário para fotografias e a calçada à margem guia até à praia. Barceloneta é a mais conhecida. Centenas de chinesas oferecem massagens por cinco euLos. Provavelmente elas não têm curso para isso, e a sessão de quinze minutos é um verdadeiro quebra coluna.

Orgulho da cidade, o Bairro Gótico enche os olhos, ouvidos e a imaginação, se a visita for guiada. Prédios antigos, ruelas estreitas e história por todos os lados. Guias locais oferecem serviço por gorjetas – aliás, esqueci de pagar algo ao meu. O tour é inglês, dura três horas e é a melhor coisa que se pode fazer para conhecer bem Barcelona. George Orwell tem uma praça com seu nome vigiada por câmeras. Buracos registrados nas paredes das igrejas recordam fuzilamentos. Postes de diversas ruelas escoravam prostitutas em séculos passados, quando a cafetinagem era disfarçada por ser ilegal.

Igrejinha amigável essa :P

Igrejinha amigável essa :P

No meio da Plaza Real há dois postes vermelhos. Presentes de Gaudí – talvez a única coisa que ele tenha aprontado antes de partir. O chafariz central foi cenário da “Roda do Mundo”, brincadeira de um grupo de italianos que conheci.

Toni se casaria em duas semanas. Os amigos de Reggio Calábria se reuniram em Barcelona para a despedida de solteiro. Toni, o imperador da noite, se vestiu de sereia. Peruca loira, saia e top lilás. Dezenas de pessoas estavam sentadas nas bordas do chafariz. Fomos o início da roda. Em poucos segundos, juntaram-se americanos, africanos, asiáticos e europeus. Até a Oceania se fez presente. Após a brincadeira, a polícia chegou. Mas, antes disso, Toni nadou na fonte.

¡Vale, vale!

Bem que a capital cataluña gostaria de se separar da Espanha. Até a língua lá é diferente. O catalão é uma mistura de castellano, o espanhol que se aprende na escola ou em cursos, com francês. Se bem que na Espanha isso é comum. Galícia, Andaluzia e o País Basco, por exemplo, também falam idiomas que só lembram o tal “espanhol de verdade”.

Catalão é mistura de castellano com francês

Catalão é mistura de castellano com francês

Meu host em Barcelona foi um couchsurfer. Argentino de nascença, mas com pai espanhol, Catriel me cedeu o quarto de visitas de sua casa. Ele mora com uma menina do País Basco, uma das chicas mais guapa que já conheci na vida. Todas as vezes que eu hablava com ela, o diálogo acabava em vale, vale, talvez a palavra/expressão favorita dos espanhóis.

Há nove anos na cidade, o sorridente Hermano é publicitário. Gastei algumas horas de minhas manhãs – regadas a mate com mel – a debater sobre as diferenças entre América e Europa. Na opinião dele, os latino-americanos aproveitam mais a vida européia. Eu concordo. Aqui é fácil arranjar trabalho e fazer dinheiro rápido. Além disso, desfrutamos das belezas dos lugares muito mais que os nativos, pois nada nos é blasé.

29 29UTC Setembro 29UTC 2009

Grande cidade grande

Madrid é gigante. Calculei errado meu tempo de viagem até a casa do David, meu host na cidade. Para começar, me perdi no aeroporto de Barajas. Corredores intermináveis, escaladas rolantes com mais de 10 metros de comprimento em sequência e guichês de informações por todos os lados.

O metro fica dentro do aeroporto, na ala B ou 2, se não me engano. O caminho não é instintivo, mas, se seguir as placas coloridas, dá para achar fácil, muito embora sejam necessários quilômetros de caminhada dentro de um mesmo prédio.

Quando olhei o mapa do metro, outro susto. Dezenas de linhas coloridas desenham uma teia subterrânea em Madrid. De ponta a ponta, em todas as direções. Dá até para confundir as cores, pois creio que não existam tantas combinações gritantemente diferenciadas para amarelo, azul e vermelho. O bilhete de dez viagens custa cerca de 7,5 euro, mas é preciso pagar uma taxa de €1 para entrar e sair do aeroporto – não me pergunte o porquê.

Em 40 minutos e três baldeações, cheguei à estação Quevedo. O apartamento de David realmente fica na rua mais bonita da cidade, conforme ele havia destacado no último e-mail. Calle Fuencarral tem árvores grandes em ambos os lados. É uma das artérias rodoviárias madrilenas.

Depois de cinco andares de escadas de madeira bruta, daquelas que fazem um barulho engraçado e não perigoso, fui recebida por um de meus ídolos: David de Ugarte. O conheci em Porto Alegre, durante um evento no qual trabalhei como jornalista. Tive que combinar com os colegas para poder assistir a pelo menos uma palestra dele. O esquema funcionou bem, e David até autografou seu livro pra mim: “À minha monografista favorita”. Espero ser digna de tal título.

Enfim, quando vi a passagem da Ryanair por €1, não tive dúvidas em bookar. Não é todo dia que se toma desañuno com uma das pessoas mais encantadoras do planeta. Ele sabe muito. Ele fala muito também. Aliás, David sabe de tudo e fala de tudo. Três dias com ele valeram mais do que dois anos de faculdade.

Após a primeira conversa no café, que fica a frente de sua morada, seguimos para as Sociedade das Índias Eletrônicas, a famosa empresa que eu tanto queria conhecer. O escritório fica numa antiga panadería, e foi engraçado quando apareceu um senhor perguntando por pão.

As Índias lembram um universo paralelo. Laptops espalhados por uma longa mesa de madeira, que abriga também pilhas de papel, pequenas caixinhas e material de trabalho. Telefones, livros, modems, cartões, plantas e SIM cards misturados. Logo na entrada há um pequeno jardim, que ainda está em construção. No subsolo fica a biblioteca, também em montagem, e um sofá cama para a famosa sesta espanhola.

La Sociedad Cooperativa de las Indias Electrónicas

La Sociedad Cooperativa de las Indias Electrónicas

(Naquele dia, David fez um vídeo do Jardín Indiano. Não consegui postar diretamente no blog, mas vale a pena conferir no post do blog das Índias Eletrônicas.)

Madrid 40º

O verão em Madrid é quente. Dá para fritar um ovo no asfalto às três horas da tarde. Há poucas pessoas na rua neste horário, nem todos se arriscam no sol de 45ºC. O ar é seco, mas não é difícil de respirar, muito embora eu acredite que os pulmões sofram um bocado. Desmaiei em minha primeira noite por causa dos 30 e poucos graus às 22h.

De metro, se chega rapidamente a quaisquer dos sightseeings. A estação Sol é a principal. É lá que está o marco zero da cidade. Diversas placas indicam a direção dos pontos turísticos, o que facilita e agiliza o passeio.

A Plaza Mayor não é tão grande assim. Pelo tamanho da capital espanhola, que conta com quase 3.5 milhões de habitantes, eu esperava mais. Prédios de escritórios circundam o local, e eu fiquei a imaginar que chic seria ter um dia no endereço de meu cartão: “Plaza Mayor, 20”.

Fernanda Kist Pugliero - Jornalista - Plaza Mayor, 20

Fernanda Kist Pugliero - Jornalista - Plaza Mayor, 20

Visita guiada

No meio de uma praça, que mais parecia um parque, mas na verdade era um canteiro que dividia avenidas, conheci Walther. O mapa aberto a frente do rosto chamou minha atenção: “Bah, tu sabe prá que lado é o Museu do Prado?”.

Walther já esteve em Madrid. Além de conhecer todos os pontos turísticos – e saber um pouco da história deles –, se prestou a ser meu guia durante duas tardes. A única coisa que ele não sabia era que depois das 17h, o Museu do Prado tem entrada franca. Mas essa informação eu tinha. A fila é grande, mas o tempo de espera pequeno. Disseram-me para olhar o quadro “Las Meninas” e sair fora. Realmente a pintura impressiona.

Embora a primeira vista não pareça nada de especial – cinco meninas sentadas, duas mulheres, dois homens e um cachorro -, foi impossível tirar os olhos. Não sei se são os detalhes, a perspectiva, o reflexo do espelho, a cara de mistério do homem na escada ou a feição dos retratados, mas algo me fixou por pelo menos cinco minutos.

À beira do Museu fica o Parque da Cidade. Lago artificial com patos e pedalinhos, um Palácio de Cristal e muito verde. O bom da Europa no verão é que nada murcha. As árvores emanam um brilho verde e as flores colorem todos os jardins, que parecem capinados diariamente.

O Palácio Real é apenas mais uma casa branca. As estátuas dos Jardins de Sabatini estão ali porque eram muito pesadas para serem postas no terraço do Palácio. O Templo de Debod foi presente egípcio, pois os espanhóis ajudaram os países que circundam o Nilo em uma das grandes cheias do rio.

A Casa Branca espanhola

A Casa Branca espanhola

Presente egípcio bonitinho :)

Presente egípcio bonitinho :)

24 24UTC Setembro 24UTC 2009

Summer of ‘09

Eu fiz xixi em Milão. Ok, na verdade foi em Bérgamo, cidade vizinha onde a Ryanair pousa. Posso me gabar também que minha urina circulou pelos esgotos espanhóis, tchecos, eslovacos, austríacos e poloneses. A metáfora é chula, mas trata-se da mais pura verdade sobre viajar. Parte de mim ficou em cada lugar pelo qual passei.

As visitas não contam. Pontos turísticos são comuns no mundo todo. A cena nunca muda. Paisagens extraordinárias, estátuas de celebridades locais, monumentos únicos e asiáticos a fotografar alucinadamente. O que vale mesmo são os encontros.

Não é todo dia que se cozinha para David de Ugarteou se toma mate com um argentino na Espanha. Nem todos tem a chance de viajar acompanhados de um polonês, que consegue ser ao mesmo tempo a pessoa mais cortês e doida que conheci na vida, cujo considero meu irmão. É bom demais rever os amigos tchecos, conhecer suas famílias e animais de estimação.

Comemorei dois aniversários, um canadense e outro polonês. Participei de uma despedida de solteiro italiana. Desenhei um labirinto ferroviário na Polônia. Pedalei, caminhei e nadei no interior da República Tcheca. Testei massagem chinesa em Barcelona e até escalei uma montanha em algum lugar próximo a Široký Důl.

Estação de trem algum lugar entre a República Tcheca e Polônia

Em algum lugar entre a República Tcheca e Polônia

Chorei na torre de TV em Praga, quando enxerguei o mapa mundi e realizei o quão longe de casa estava. Comi coisas que nem sabia serem comestíveis, girassóis, por exemplo. Dancei sem música no meio da rua em Viena e quase recebi “contribuições financeiras” por isso. Pensei todos os dias que não agüentaria o próximo, ora por causa do problema no meu pé, ora pelos inúmeros hematomas que angariei ou das duas vezes que cortei meu dedão esquerdo.

Impossível comer uma só!

Impossível comer uma só!

Descobri músicas novas e cantava em português sempre que possível, para não esquecer minha língua materna. Aprendi tcheco, confundi com polonês e percebi que quando falo alemão não consigo pensar em inglês. Repeti três dias seguidos no momento “Fernanda Filósofa” em Varsóvia que “life sucks”, mas me dei conta nas últimas noites em Brno que o importante é ter – ou fazer – amigos, não importa o quão difícil pareça viver.

Enchi o saco do Karol repetindo ao anoitecer que “I gotta feeling”. Torrei a paciência do Tomáš olhando com cara feia todas as vezes que ele abria o mapa da Morávia e traçava rotas de caminhada e ciclismo. Traduzi músicas para o Lukaš, e ele perguntou se todo hit brasileiro fala de amor. Abracei a Nina milhões de vezes, e ficamos sorrindo uma para a outra sem dizer nada, como fazíamos na sacada do apartamento dela em Portugal. Tenho que agradecer a Kasia pelo remédio polonês que curou – parcialmente e não em definitivo – meu pé. Devo dez Coroas Tchecas para a mãe da colega de quarto da Aneta, pois não tinha mais dinheiro para pagar a bagagem extra.

Espero que meu host em Varsóvia tenha aberto o presente que deixei no sofá antes de pensar que se tratava de lixo. Adorei reencontrar a Asia, que me recebeu como irmã em Wroclaw. Me realizei quando encontramos o Voytaš antes dele buscar a nova namorada na estação de trem. Nunca presenciei nervosismo masculino tão eminente. Os dois se conheceram na Ucrânia, mas ela também é polonesa. Torço para que dê certo. Da mesma maneira que espero que Toni esteja feliz com sua esposa. Aliás, o mais novo casal italiano deve ter retornado da lua-de-mel antes mesmo de eu voltar para o Porto.

Me considero uma pessoa de sorte por contar com um suporte técnico tão eficiente. Eles trabalharam remotamente direto de Portugal, mas são todos brasileiros. Dentinho, Felipe, Babi e Kelly são mais do que família para mim.

Descobri cinco países e onze cidades em 35 dias de viagem. Isto sem contar o tour pela Morávia, região sul da República Tcheca, onde passei por lugares que nem estão no mapa. Sobrevivi. Aprendi. Emagreci, mas engordei de novo. Ultrapassei meus limites além do que deveria. Desmaiei em Madrid. Passei mal no meio da floresta tcheca. Apesar disso, valeu a pena cada segundo, até mesmo aqueles que gastei dormindo em aeroportos, trens ou calçadas.

Lugares sem informações turísticas em inglês são mais divertidos

Lugares sem informações turísticas são mais divertidos

Por isso, grito com toda a certeza do mundo que EU FIZ A MELHOR EUROTRIP DE TODOS OS TEMPOS. Aliás, diga-se de passagem, espero que não tenha sido só xixi que espalhei por aí.

4 04UTC Setembro 04UTC 2009

Do not be crazy, Fernanda!

Todo mundo sempre me diz para deixar de ser doida. O problema é que eu nunca escuto. Certo dia entrei no site da Ryanair e consumei a loucura. Quarenta dias viajando por parte da Europa sozinha. Madrid, Barcelona, Bratislava, Viena, Brno, Praga, Wroclaw e Varsóvia. Sempre dormindo em aeroportos, casa de amigos ou couchsurfers. Se bem que adormeci em uma das ruas de Bratislava, mas isso nem conta.

Saudades de falar minha língua. Vontade de comer comida de verdade – chega de fritura peloamordedeus!. Necessito urgentemente de um médico que olhe meu pé, pois sai do Porto com um problema que está 39 vezes maior. Saudades de um teclado conhecido, onde os acentos ficam nos lugares certos. Vontade de descansar. Aliás, estou na metade da jornada e parece que estou longe de casa há mais de um ano.

A parte boa é que eu viajei esperando nada. Nem pensei no que queria visitar. Aliás, nem fiz muitas fotos. Vou andando, conhecendo gente, encontrando amigos, bebendo cerveja de meio litro por 13 coroas tchecas – 25 coroas tchecas valem 1 euro -, cantando no meio da rua, dormindo e comendo pouco, falando muito… mas isso é normal até.

Bom também é poder pensar sem amarras. Mochila nas costas, um pouco de dinheiro no bolso e um coca-cola sempre ao alcance. O celular nem recebe chamadas. Poucas mensagens. Mas eu sei que tem gente me esperando e sentindo minha falta. Isso é bom, pois eu teimo em dizer que nem sinto saudades, mas de vez em quando bate uma dorzinha.

Aliás, bem que eu queria escrever a palavra NAO, mas aqui nem tem til. Tem coisas pequenas que valem muito. Procurei pela crase também e nada dela. A palavra do dia seria ADAPTACAO, se eu conseguisse escrever corretamente.

13 13UTC Agosto 13UTC 2009

Vamos ao shot!

Não é só mulher que ganha bebida de grátis nessa vida. Viajei a Portimão com meu amigo Dentinho, futuro companheiro de casa a partir de outubro. O dia e a noite no Algarve são quentes por demais. Ontem à noite demos uma volta pela avenidinha principal daqui. Cheia de bares, gente animada, inglesas com vestidos curtíssimos e portugueses bêbados. Foi em um desses bares, que, aliás, parece mais uma danceteria, que conhecemos Cristiano, português de Leiria que mora na Suíça.

“Moro sozinho na Suíça e vocês estão convidados para ir a minha casa”, disse ele, meia hora depois de oferecer uns goles de sua garrafa de Martini, que já estava pela metade. Intercalando com frases como “Vamos ao shot” ou “Eu amo o Brasil”, bebemos por sua conta até ficar bem alegrinhos. O gajo estava de férias por aqui e aquela era sua última noite no sul do país. Depois voltava a Leiria por uma semana e seguia para a Suíça.

Não se paga nada para entrar nesses lugares. Ainda ganhamos um shot grátis na compra de uma bebida qualquer, em um dos estabelecimentos. O Algarve está bombando de festas essa época. Vi flyers de festas que pagam o táxi dos clientes. Teve show do Yves La Rock um dia desses, acho que na terça, e David Guetta toca em uma praia perto de Portimão no sábado. Pena mesmo é que voltamos amanhã, sexta.

Por falar nisso, Portimão é muito linda. Como disse um amigo portuga, o Manel, a cidade não é grande coisa, mas as praias são maravilhosas. Aproveitamos intensamente os dias quentes e sem nuvens a fim de desestressar, até porque trabalhamos e estudamos demais esse semestre, é preciso férias!

Não me canso do Algarve tão cedo!!

Não me canso de dizer que o Algarve é feio demais!

12 12UTC Agosto 12UTC 2009

Férias?

A vida dá voltas, tudo fica uma correria e o mundo parece um caos. Calma, Fernanda! São só as férias. Depois de três semanas intensas de festas de despedidas – por que todo mundo não vai embora no mesmo dia e faz uma festa só? -, comecei a arrumar meus pertences para a mudança de lar. Vou morar na tal República Sempre Cabe +1, fundada por meus amigos ouropretanos, e que agora mantém somente o Igor “Dentinho” como morador remanescente.

A fim de desestressar, decidi viajar ao Algarve. São só três dias em Portimão, mas vai dar tempo de pegar uma cor, esfriar – ou esquentar? – a cabeça no sol e esparecer, literalmente. Percebi que meus problemas estão mesmo no Porto: Malas semi-feitas, lixo e mais lixo, apartamento para limpar, contas para pagar, check-in online e roteiro de viagem a fazer… e por aí vai. Pior de tudo é que não tenho nem lista de afazeres. O mais importante é a mala da viagem, o cabelo cortado e a sombrancelha em ordem.

Como disse minha amiga Nina, o que eu esquecer, dá pra comprar no caminho. Em Madrid e Barcelona também existem civilização e coisas para vender. Em Bratislava pode ser mais complicado – o lado leste é mais esquisito -, mas fico pouco tempo lá. Em Brno tenho abrigo em casa de amigos. Viena e Praga entram e saem do meu roteiro todos os dias… ainda não tenho certeza se passo por lá. Varsóvia vou me forçar a ir, pois meu melhor amigo polonês prometeu dar uma de guia turístico por alguns dias. Wroclaw e Cracóvia também são opcionais, mas também valem visita.

Enfim, sábado de madrugada chego ao Porto, o findi está perdido e a segunda vai ser lou-cu-ra! Terça vou para o aeroporto a meia-noite, acampo lá e começo o tal mochilão na quarta, 19 de agosto, às 6h45min, se não me engano! As aulas começam dia 14 de setembro, mas eu não prestei atenção neste detalhe quando comprei as passagens. Só volto dia 23 de setembro. Paciência!

29 29UTC Julho 29UTC 2009

Amigo

Descobri o dia do amigo em 2006, quando fui à Argentina e vi a comemoração ferrenha no dia 20 de julho. Decidi espalhar a data entre meus amigos brasileiros, quando morava no Hemisfério Sul. Pois, este ano, difundi a data aqui em Portugal. Enviei algumas mensagens logo pela manhã parabenizando meus queridos aqui do Porto e marquei um jantarzinho com minhas colegas de casa, Maren e Clara.

Juro que tentei fazer fogo na nossa churrasqueira, mas concluí que não sou apta a isso ainda. Foi a Maren quem salvou o jantar. Fogo feito, vegetais cortados, molho pronto. Colocamos o chouriço para assar, e o churrasco até que ficou simpático. Coisa de menina. Comida leve, vinho tinto e salada para acompanhar. Como sempre, acabou com discussões sobre relacionamentos e o que pretendemos fazer no futuro.

Clara a preparar o nosso jantarzinho

Clara a preparar o nosso jantarzinho