70 dias de Alemanha

Estou há tempos sem passar por aqui, mas de vez em quando é bom vir tirar o pó que se acumula, limpar os fenos e ver se a casa está em ordem. E, dessa vez, trago boas novas! Não, não voltarei a viver a Vida Portuguesa, no entanto, vou participar de um programa alemão para jornalistas e viver cerca de 70 dias em Berlin. Para isso, criei um novo blog (e espero que quem gosta de me ler, dê uma passadinha por lá!). De qualquer forma, nos primeiros três dias de viagem, vou dar uma passadinha em Portugal. E, é óbvio, vou para o Porto rever minha terrinha do coração.

O endereço do blog 70 dias de Alemanha é: www.70diasdealemanha.wordpress.com

Espero encontrá-los por lá :)

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A crise da Europa no jornal brasuca – parte V

Confesso que demorei a postar sobre a Grécia. Falha minha. Mas como não sou fã de promessas que não garanto 100% que irei cumprir, não vou dizer que essa será a última vez que isso acontece. No entanto, pretendo me esforçar.

Posto hoje, finalmente, a primeira matéria da série de reportagens sobre a crise europeia. A Grécia foi a primeira a ser abordada, até porque, foi quando a crise chegou ao país da Acrópole que o assunto correu o mundo. Até porque, se não estou enganada, a Irlanda já estava com problemas bem antes da Grécia. No entanto, foi no-país-do-idioma-esquisito que a coisa pegou fogo, virou manchete de jornal e repercute até hoje. A Grécia acabou por fim sendo o símbolo da crise na Europa.

A capa do caderno do jornal que publicou as reportagens da série "Europa sob mau tempo". A primeira data de domingo, 5 de fevereiro.

EUROPA SOB MAU TEMPO:

CALOTE NA ACRÓPOLE

As reportagens sobre a crise na Europa foram feitas por jornalistas que vivem nos países em situação mais dramática. Neste domingo, o retrato do cotidiano na Grécia, primeira nação a mostrar que a turbulência iniciada em 2008 nos Estados Unidos iria sacudir a zona do euro

Morar no país mais endividado e enfraquecido da União Europeia não é fácil. É preciso mudar hábitos, adaptar-se e ser otimista para sobreviver. As rigorosas medidas de austeridade impostas pelo governo da Grécia, como aumento de impostos, cortes de salários e demissão de milhares de funcionários públicos, obrigaram os gregos a mudar de estilo de vida.

Se o país de Platão e Aristóteles era conhecido como a região da Europa com as noites mais divertidas, na qual carros de luxo, viagens e estilo de vida caríssimo faziam parte do cotidiano, a situação atual é bem diferente. Porsches Cayenne, que eram mais vendidos na cidade grega de Larissa do que em Londres, estão sendo trocados por automóveis populares. Lojas de marca fecham as portas. Viagens internacionais são trocadas por nacionais, e a diversão em bares, restaurantes e boates migrou às casas de amigos.

A Grécia de 2012 é muito diferente daquela da Olimpíada de 2004, quando os gregos gozavam de salários altos e taxas de desemprego baixas. Hoje, mendigos estão em cada esquina de Atenas. Assaltos são mais frequentes e hábitos simples como tomar café não são mais diários. O Instituto Grego de Estatística explica: com a crise econômica, centenas de negócios fecharam as portas, e o desemprego subiu para 18,2% em outubro.

“O impacto do desemprego é desesperador. Em um ano, aumentou 40% o número de passageiros que não pagam a passagem no metrô. A maioria é de pessoas entre 27 e 35 anos. Fico numa posição difícil, porque tenho de multá-los mesmo sabendo que a maioria é de desempregados e por isso não paga a passagem”, diz Giorgos Xenthanopolous, fiscal do metrô de Atenas.

Giorgos vê como única solução a instalação de barras eletrônicas no lugar das máquinas automáticas. Para a taxista Anastasia Karsanidou, o controle deverá ajudar a conter o calote nas catracas, mas vai prejudicar muita gente.

“Antigamente, táxi ou carro era o meio de transporte mais usado. Com a crise, transporte público é a única opção, alguns nem pagam a passagem por falta de dinheiro mesmo”, diz.

Anastasia também está preocupada com o futuro dos dois filhos e a profissão da família: “Haverá emprego? Voltaremos para o dracma (moeda grega antes do euro)? Meu marido é músico. Estamos em duas profissões de que os gregos se afastaram drasticamente: táxi e diversão.”

Leonidas Vasilopous é um dos universitários gregos que trocaram a diversão por encontros em casa de amigos. “Adoramos ir à taverna, bouzukia (clube grego), mas a crise não permite. Não há dinheiro nem para pagar as contas. Então, nos reunimos em casa. A maioria dos meus amigos está desempregada”, diz Leonidas enquanto entregava jornais, dizendo se considerar sortudo por ter um emprego.

Professores e advogados são os mais afetados

Entre dezenas de profissões, a crise também atingiu drasticamente professores e advogados. Com redução de salários em torno de 300 euros mensais (cerca de R$ 810), professores foram obrigados a se adaptar.

“Tive que mudar para um apartamento menor e cortar teatro e cinema para diminuir as contas mensais. Sempre comprei muitos livros, hoje não é possível”, conta o professor Vasileios Davas.

Davas diz que a crise faz as pessoas se sentirem mais ansiosas e depressivas. Para a advogada Paschalia Petridou, a Grécia passou a ser um país sem futuro.

“Com as novas medidas, não é mais necessário ter advogado para uma série de serviços, como o divórcio. Com isso, nosso trabalho diminuiu drasticamente. Porém, os impostos que pagamos como autônomos aumentaram. Além disso, empresas, como a que trabalho, atrasam meses o pagamento e, se não fosse a ajuda familiar, seria difícil manter o necessário. A situação é tão caótica que no supermercado estamos comprando somente o básico”, desabafa a advogada.

Paschalia ressalta que é difícil viver num país onde, se perder o emprego, não será possível procurar outro, porque não há vagas: “O jeito é ir embora para o exterior.”

Imigrantes também estão retornando aos seus países de origem. “Antes da crise, uma família grega me chamava duas vezes por semana para fazer faxina. Agora, os que não cortaram totalmente me chamam uma vez por mês. A maioria é de aposentados com problemas de saúde”, afirma a búlgara Violeta Cristouma, que mora na Grécia desde 1997.

Segundo Violeta, a maioria dos colegas da Bulgária, Albânia e Rússia perdeu o emprego e voltou para seus países de origem.

Nas principais cidades, lojas fecham as portas

Além de ter levado milhares de gregos a transferir as economias para bancos do exterior, a instabilidade na Grécia trouxe a dúvida sobre se é mais seguro manter o dinheiro em bancos do país ou deixá-lo em casa. “Prefiro guardar o pouco que tenho comigo. Tudo pode acontecer. Me lembra a época de guerra”, comenta a aposentada Ioanna, que prefere não revelar o sobrenome.

A crise não poupou a classe mais favorecida. Segundo Dimitris Liaos, dono de uma loja de equitação, no único hipódromo da Grécia havia, em 2010, 1,5 mil cavalos. Hoje, são 550. “Quem comprou cavalos por hobby não tem mais condição de mantê-los. Ou vendem ou dão de graça. A classe média tinha entrado para o hipismo, mas com a crise não conseguiu se manter”, relata Liaos.

Além disso, segundo o empresário, a Grécia perdeu a credibilidade no Exterior: “fazíamos importação com prazo para pagamento de dois meses, agora temos de pagar à vista. O pequeno e o médio empresário não têm como sobreviver sem crédito”, reclama.

Uma pesquisa da Confederação Nacional do Comércio Grego (Esee) mostrou que, nos últimos dois anos, 68 mil lojas foram fechadas nas principais cidades da Grécia. Espera-se que até o próximo mês mais 53 mil encerrem as atividades. Numa das principais ruas comerciais de Atenas, Stadiou, 32% das lojas cerraram as portas. Em Solonos, foram 40%. No bairro mais caro da capital grega, Kolonaki, das 300 lojas, 71 encerraram atividades no ano passado.

Crédito: Cláudia Machado (Jornalista e cientista política, Cláudia Machado, 33 anos, trabalha na área de jornalismo e redação para empresas de marketing em Atenas, na Grécia. Nascida em Petrópolis (RJ), mora no exterior há uma década.)

Grécia: sinônimo de crise e calote no mundo contemporâneo

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A crise da Europa no jornal brasuca – parte IV

EUROPA SOB MAU TEMPO:

DESPEDIDA DO FUTURO

No encerramento da série sobre a crise da Europa, irlandeses acuados por impostos e desemprego deixam o país ou buscam refúgio em pubs

Depois de terminar 2011 com aumento de Imposto de Renda e a notícia de que o governo pretende cortar 23 mil empregos no setor público até 2015, este ano começou ainda mais caro para os irlandeses. Eles suportam o peso do novo valor do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços, que passou de 21% para 23%, e se preparam para arcar com um novo tributo sobre propriedades – equivalente ao IPTU brasileiro.

Um país que tem emigração em massa como parte da história e que já teve dias de glória como Tigre Celta – referência ao crescimento rápido do início dos anos 2000 – agora é mais uma vítima da turbulência econômica. Que, mais uma vez, muda a vida de seus cidadãos. Sean O’Saor, 30 anos, bancário, não consegue ver na Irlanda um futuro para sua carreira.

“O banco em que eu trabalhava perdeu mais da metade dos lucros, e muitos perderam promoções e o emprego. Nossos clientes eram irlandeses e estrangeiros que estavam com grandes problemas. Então, decidi deixar o país antes que ficasse ainda pior”, conta.

O’Saor vive há um ano e meio em Luxemburgo, país da zona do euro que ficou praticamente imune à crise e continua a ter a maior renda per capita do mundo.

“Eu tenho um projeto. Quero abrir um negócio, mas não acredito que seja possível na Irlanda. A crise está matando os que têm ambição e empurrando o país de volta ao comportamento conservador em busca de segurança”, explica O’Saor.

Até 150 euros no pub

Aos 25 anos, Christopher Coventry, assistente de gerente no varejo, quis investir na compra de um imóvel antes da crise, e o fez por meio de um banco. Quando a bomba econômica estourou, vendas e comércio foram afetados, sua renda diminuiu com os impostos e com a redução nas horas de trabalho. Não achou outro emprego que permitisse pagar a casa comprada dois meses antes.

“Fui mal orientado pelo banco, que disse ser o momento certo para comprar imóveis. Eles só queriam empurrar o financiamento. Ao renegociar, só ofereceram 8% de redução. Passei a trabalhar mais por menos e cheguei a dormir no chão da casa dos meus pais”, diz Coventry.

Coventry deixou família e amigos para viver no Canadá, onde trabalha na mesma função. Só assim está conseguindo pagar o financiamento da casa. “Precisei deixar a Europa em busca de trabalho. Se depender da minha vontade, não volto nunca mais”, afirma.

Stephen Dunne perdeu o emprego de consultor em empresa de recrutamento. “Precisei morar com minha mãe. Aos 25 anos, não deveria mais estar dependendo dela”, lamenta.

Ele é dono de uma loja de conveniência ao Norte do condado de Dublin. Os moradores passaram a comprar em grandes supermercados, e trabalhadores, a levar suas refeições, o que diminuiu o movimento da loja.

“Tive sorte de conseguir renegociar o aluguel do prédio, que reduziu 40% nesses quatro anos. Se o proprietário não entendesse minha situação, eu teria perdido meu negócio”, diz.

É impossível falar da Irlanda sem lembrar de seus pubs, hoje refúgios da tensão. Mesmo em um momento de fazer economia, esse tipo de gasto tem sido difícil de cortar para os irlandeses. O pint, copo com 500 ml de cerveja, ainda custa entre 5,50 euros e 6,10 euros. É comum ouvir um irlandês dizer que gastou 150 euros em apenas uma noite.

Crédito: Leandro Rocha (O jornalista Leandro Rocha, 32 anos, vive na Irlanda há cinco anos. Natural de Campo Grande (MS), é estudante de marketing.)

Mesmo em crise, o dinheiro do pint é sagrado

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A crise da Europa no jornal brasuca – parte III

EUROPA SOB MAU TEMPO:

O FIM DO CIRCO DA SONEGAÇÃO

No quarto dia da série sobre a crise na Europa, como o dolce far niente perdeu a doçura e hoje amarga a vida dos italianos

Paola Pronzato vive em uma colina perto da cidade de Viareggio, na região da Toscana, conhecida por sua indústria naval. Todos os dias, agradece por contar com o apoio financeiro da mãe aposentada e da irmã jornalista. Assim como milhares de italianos, Paola sofre no dia a dia os sintomas da crise econômica do país.

“A editora para a qual trabalho como secretária perdeu muitos clientes, e alguns funcionários foram mandados para casa. Tivemos horas de trabalho e salários reduzidos”, conta Paola, que agora complementa a renda como faxineira.

Mãe de dois adolescentes e recém-separada do marido que não lhe dá pensão alimentícia, Paola recebe o seguro-desemprego há mais de um ano.

A jovem Jessica Laveni, 20 anos, de Milão, enfrenta problemas semelhantes. Depois de um frustrado vestibular para o curso de design, decidiu que era hora de trabalhar. Mas o sonho do primeiro emprego ainda não se realizou. Estágios não remunerados e contratos temporários são os únicos resultados no currículo da jovem. “Gostaria de trabalhar em design, mas agora estou disposta a aceitar qualquer outra coisa, como vendedora de loja e caixa de supermercado. Melhor do que ficar em casa sem fazer nada.”

Em um país onde o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi dava sua benção em público a quem sonegava impostos, é de se esperar que tal prática seja comum entre os italianos. Muitos deles se orgulhavam de burlar o sistema fiscal. Esse tipo de prática de alguns cidadãos ajudou de alguma forma a criar uma situação que hoje abala a vida de Paola e Jessica.

As autoridades fiscais da Itália afirmam que o país perde cerca de US$ 15 bilhões por ano em receitas não declaradas, ou seja 17,5% do produto interno bruto (PIB) é sonegado. Esse é o terceiro maior índice da Europa, atrás somente de Malta e Grécia. “Sonegação é um grande problema na Itália. Mas a crise se deve sobretudo à perda de confiança e credibilidade do país no mercado internacional. Infelizmente, assim como na vida, a traição pode durar um segundo, mas reconquistar a confiança requer muito tempo”, diz o vice-diretor da revista econômica “Il Mondo”, Fabio de Rossi.

Para resolver o problema da crise, o atual primeiro-ministro, Mario Monti, lançou um pacote de austeridade fiscal de 30 bilhões de euros, aprovado pelo Senado no fim de 2011. As novas medidas permitem que o fisco vasculhe as contas bancárias dos italianos para confirmar se o valor dos depósitos está de acordo com a renda declarada. E os ajustes não param aí: revisão da idade para aposentadoria, liberalização dos preços de alguns setores, horário flexível para o comércio, venda de alguns medicamentos em supermercados, entre outros.

A Itália que sonega impostos, não paga taxas e trabalha informalmente também tem medo de acabar como a vizinha Grécia. O que não se explica, para muitos, são algumas anomalias. Segundo o fisco, quase metade dos barcos com mais de 10,7 metros pertencem a pessoas que declaram renda inferior a 26 mil euros (R$ 58,6 mil) ao ano. Os donos de 604 aviões particulares declaram rendas anuais entre 26 mil e 65 mil euros (R$ 146,5 mil).

Crédito: Fernanda Massarotto (Paulistana, a jornalista Fernanda Massarotto, 42 anos, mora há oito anos em Milão. Escreve sobre futebol, design, moda, turismo e economia)

O fim do dolce far niente italiano

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A crise da Europa no jornal brasuca – parte II

EUROPA SOB MAU TEMPO:

DESEMPREGADOS ENCHEM AS RUAS

No terceiro dia da série sobre a crise na Europa, a descrença dos espanhóis chega até a monarquia

Queda na bolsa de valores, aumento da dívida, resgate, recessão, risco-país. A cada dia, novos indicadores tumultuam o cotidiano dos espanhóis. O vocabulário das ruas se mescla ao do noticiário, e todos, além de treinadores de futebol, agora são analistas econômicos.

Enquanto Mariano Rajoy terminava seu primeiro discurso como novo primeiro-ministro espanhol, no final de dezembro, um senhor comentava com outro: “Mais de uma hora de discurso, e a única coisa de que lembramos é que ele quer passar todos os feriados para segundas-feiras.” A observação reflete como a crise econômica afeta o modo de vida espanhol. Assim como para os brasileiros, para eles os feriados são sagrados, e abrir mão será uma dura obrigação.

Quando o número de desempregados passa de 5 milhões – mais de um a cada dez habitantes – e fica cada vez mais difícil prever o que irá acontecer nos próximos meses, os espanhóis começam a colocar em xeque até o que antes parecia inquestionável.

Combinado aos sacrifícios impostos à população, um escândalo de desvio de dinheiro que envolveu o genro do rei Juan Carlos obrigou a tradicional monarquia, pela primeira vez desde a redemocratização, a tornar públicas suas contas. Os valores, que chegam a 1 milhão de euros por ano, indignaram a população. A notícia veio à tona no fim de 2011. Na época, a Espanha já era conhecida por abrigar algumas das maiores marchas de protesto da Europa, comandadas pelos autodenominados Indignados.

O desemprego é o que mais preocupa os espanhóis. Um exemplo da falta de perspectivas é dado por duas profissionais da área de comunicação que trabalhavam sob contrato temporário – o mais comum neste momento – e foram demitidas na véspera do Natal. A explicação da empresa: todos os negócios voltados ao mercado espanhol haviam sido cancelados, e a empresa passaria a atender a outro país. Como as amigas, de 25 e 35 anos, não tinham experiência no novo mercado, seus postos seriam ocupados por outros.

A funcionária mais antiga dizia estar tranquila, pois com seu salário-desemprego poderia viver alguns meses. Já a mais nova, que ingressara há pouco no mercado de trabalho, estava apavorada – seu contrato não lhe dava direito ao seguro, e a possibilidade de encontrar um novo trabalho era remota. Mais de um mês depois, as duas espanholas ainda estão desempregadas.

Cresce barreira a estrangeiros

Esta não é a primeira crise enfrentada pela Espanha, mas já está entre as mais duras. Os que atravessaram outros períodos de dificuldade econômica, como a do início dos anos 90, acreditam que o momento está servindo para chamar a atenção da população para a necessidade de se adaptar às mudanças e não temer as adversidades. Tal como está a economia, é impossível saber o que vai acontecer, mas tudo indica que uma nova alta de impostos se aproxima.

A crise afeta também estrangeiros que estão na Espanha. Muitos, ainda com a velha ilusão de fazer dinheiro na Europa e depois voltar aos seus países, continuam desembarcando no país. A maioria dos jovens que conheço e estudam em Madri são venezuelanos. Para eles, a situação está muito difícil, mas ainda não se compara à de seu país.

Hoje, segundo dados do Instituto Nacional de Estatísticas (INE), quase 10% da população da Espanha é formada por estrangeiros. Aqueles que já estavam no país antes de 2008 e têm algum tipo de formação seguem com seus trabalhos, mas já avaliam a possibilidade de voltar à terra natal. Os que estão chegando agora encontram ainda mais barreiras para entrar e permanecer. Entre empregar um espanhol e um estrangeiro, as empresas optam por cidadãos locais.

Crédito: Tatiana Mantovani (Tatiana Mantovani, 28 anos, é jornalista e vive em Madri. Atua na área de marketing e gestão de conteúdo para uma página de internet na capital espanhola)

Na Espanha, de cada 10 pessoas, 1 está desempregada

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A crise da Europa no jornal brasuca – parte I

Um dos jornais da minha cidade está publicando essa semana uma série de reportagens sobre a crise na Europa. A primeira matéria saiu ontem, domingo, e era sobre a Grécia. Hoje, segunda, foi a vez de Portugal. Na sequência, Itália, Irlanda e Espanha.

Pretendo fazer comentários sobre os artigos publicados no final dessa semana. Por enquanto, apenas colo a íntegra dos textos e a imagem da página de onde saíram. Inicio por Portugal, pois é o que cerneia o presente blog :)

Portugal, o P de PIIGS

EUROPA SOB MAU TEMPO:

ARROCHO NA MESA DO RESTAURANTE

No segundo dia da série sobre a crise na Europa, como o aumento de impostos gera desafios aos comerciantes de Portugal

A secular Madragoa, bem próxima ao rio Tejo e à zona portuária de Alcântara, já resistiu ao Grande Terremoto de 1755, ao rearranjo político-econômico do regime salazarista e à tão aguardada entrada na União Europeia (UE). Costuma-se dizer pelas ruelas desse bairro que “quem por cá vive, gente forte é”. Mas o que essa gente empreendedora não esperava é que, num piscar de olhos, um empréstimo internacional de 78 bilhões de euros mudasse tudo.

A crise vivida pela zona do euro vem impondo um novo modo de vida aos lusitanos. Somada à política intervencionista da troika (composta por UE, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu), alterou hábitos de consumo, elevou o índice de desemprego e diminuiu a competitividade do país no mercado externo.

Na ruelas da Madragoa, nem todos conseguiram se reinventar. Na pequena travessa do Pasteleiro, em dois meses a vizinhança viu dois tradicionais estabelecimentos fecharem: um salão de cabeleireiro e uma galeria de arte que empregava uma dezena de profissionais.

O que se diz na travessa, um discurso que ecoa por toda a cidade, é que “não há maneira de sustentar tantos impostos”. Traduzindo em números, significa dizer que, para o governo do primeiro-ministro Passos Coelho cumprir as metas determinadas pela troika, os donos de restaurantes, por exemplo, pagarão 10% a mais de Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA). E há mais: 23% de aumento nas tarifas de energia elétrica e gás, 3,19% nos aluguéis, 13% na tarifa da água, 4,36% nos pedágios.

30% dos jovens sem trabalho

O reflexo da austeridade é sentido por vários segmentos. Como muitos em Lisboa, o comerciante José Martins Sousa, 64 anos, à frente de um pequeno restaurante na Madragoa há três décadas, refez toda a logística do local para reduzir o impacto dos aumentos de tributos.

“Não alterarei os valores do cardápio. Mas me vi obrigado a dispensar meus três funcionários e manter o ritmo da casa apenas comigo e minha esposa”, conta Martins, que não sabe até quando manterá as portas abertas.

Um dos primeiros a integrar a Passeata dos Indignados e Precários, no dia 21 de janeiro, o aposentado Fernando Augusto, 64 anos, confirma um cenário cada vez mais recorrente: de pais que mantêm os filhos desempregados. Mesmo com o corte mensal de 300 euros na aposentadoria, Augusto arca com todo o orçamento doméstico e sustenta os dois filhos recém-formados.

“Que perspectiva tem um pai de família ao ver os filhos formados e desempregados há meses?”, desabafa o aposentado.

Mais de 30% dos jovens estão sem trabalho no país. De acordo com os últimos dados da Eurostat e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), há mais de 600 mil desempregados inscritos nos centros de emprego em Portugal.

Mas é no meio da crise que se vê emergir uma nova linguagem de emancipação. Na gramática da indignação, repercutida da Madragoa até Benfica e passando pelo Chiado, há uma população disposta a transformar a política unilateral do país. E, como nem todo fado canta a desilusão, o português sabe muito bem o que significa transformação.

Crédito: Juliana Souza (Jornalista, Juliana Souza vive em Lisboa desde 2008 e escreve para jornais e agências em Portugal e no Brasil. Atualmente, cursa doutorado em linguagens e heterodoxias na Universidade de Coimbra.

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Porque lá em Portugal…

Adivinha o que meus amigos fazem quando veem alguma coisa sobre Portugal na Internet? Colam o link no meu Facebook, ou, então, me enviam por e-mail. Meus amigos encontram comigo e comentam sobre o programa “Muito Giro”, que passa no canal por assinatura Multishow, ou sobre as tantas reportagens que a Globo anda a fazer na terrinha – provavelmente a produção em Portugal tenha aumentado por conta dos estúdios em Lisboa inaugurados no final de 2011. Eles veem Porto, Lisboa e o Algarve inteiro na tv (ou na Internet) e querem comentar comigo. Tem gente que pede dica de viagem, mesmo sem ter nada planejado, enquanto outros aproveitam para esclarecer dúvidas do tipo: “Onde fica a cidade do Algarve?”, e eu tenho que explicar que o Algarve é uma região-muito-gira no sul do país.

Eu gosto de ser esse ímã de assunto sobre Portugal, até porque eu adoro aquele país. Sou até criticada por frequentemente iniciar frases assim: “Porque lá em Portugal…”. É irritante, eu sei. Parece esnobe, eu entendo. Mas o que eu posso fazer? Eu sei que tão cedo não devo voltar, então procuro curtir minhas lembranças da maneira que eu julgo a melhor: diariamente!

Hoje abri meu Facebook, e lá estava o link da versão fado da música de Michel Teló. Não sou muito fã do ritmo, mas custa nada dar um bizóiada. Até porque quem colou na minha wall foi uma amiga muito querida, a Laura, que, inclusive, me visitou quando eu morava no Porto. Detalhe que ela só inclui Porto e Lisboa no roteiro porque eu disse que Portugal valia a pena sim!

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