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A crise da Europa no jornal brasuca – parte V

Confesso que demorei a postar sobre a Grécia. Falha minha. Mas como não sou fã de promessas que não garanto 100% que irei cumprir, não vou dizer que essa será a última vez que isso acontece. No entanto, pretendo me esforçar.

Posto hoje, finalmente, a primeira matéria da série de reportagens sobre a crise europeia. A Grécia foi a primeira a ser abordada, até porque, foi quando a crise chegou ao país da Acrópole que o assunto correu o mundo. Até porque, se não estou enganada, a Irlanda já estava com problemas bem antes da Grécia. No entanto, foi no-país-do-idioma-esquisito que a coisa pegou fogo, virou manchete de jornal e repercute até hoje. A Grécia acabou por fim sendo o símbolo da crise na Europa.

A capa do caderno do jornal que publicou as reportagens da série "Europa sob mau tempo". A primeira data de domingo, 5 de fevereiro.

EUROPA SOB MAU TEMPO:

CALOTE NA ACRÓPOLE

As reportagens sobre a crise na Europa foram feitas por jornalistas que vivem nos países em situação mais dramática. Neste domingo, o retrato do cotidiano na Grécia, primeira nação a mostrar que a turbulência iniciada em 2008 nos Estados Unidos iria sacudir a zona do euro

Morar no país mais endividado e enfraquecido da União Europeia não é fácil. É preciso mudar hábitos, adaptar-se e ser otimista para sobreviver. As rigorosas medidas de austeridade impostas pelo governo da Grécia, como aumento de impostos, cortes de salários e demissão de milhares de funcionários públicos, obrigaram os gregos a mudar de estilo de vida.

Se o país de Platão e Aristóteles era conhecido como a região da Europa com as noites mais divertidas, na qual carros de luxo, viagens e estilo de vida caríssimo faziam parte do cotidiano, a situação atual é bem diferente. Porsches Cayenne, que eram mais vendidos na cidade grega de Larissa do que em Londres, estão sendo trocados por automóveis populares. Lojas de marca fecham as portas. Viagens internacionais são trocadas por nacionais, e a diversão em bares, restaurantes e boates migrou às casas de amigos.

A Grécia de 2012 é muito diferente daquela da Olimpíada de 2004, quando os gregos gozavam de salários altos e taxas de desemprego baixas. Hoje, mendigos estão em cada esquina de Atenas. Assaltos são mais frequentes e hábitos simples como tomar café não são mais diários. O Instituto Grego de Estatística explica: com a crise econômica, centenas de negócios fecharam as portas, e o desemprego subiu para 18,2% em outubro.

“O impacto do desemprego é desesperador. Em um ano, aumentou 40% o número de passageiros que não pagam a passagem no metrô. A maioria é de pessoas entre 27 e 35 anos. Fico numa posição difícil, porque tenho de multá-los mesmo sabendo que a maioria é de desempregados e por isso não paga a passagem”, diz Giorgos Xenthanopolous, fiscal do metrô de Atenas.

Giorgos vê como única solução a instalação de barras eletrônicas no lugar das máquinas automáticas. Para a taxista Anastasia Karsanidou, o controle deverá ajudar a conter o calote nas catracas, mas vai prejudicar muita gente.

“Antigamente, táxi ou carro era o meio de transporte mais usado. Com a crise, transporte público é a única opção, alguns nem pagam a passagem por falta de dinheiro mesmo”, diz.

Anastasia também está preocupada com o futuro dos dois filhos e a profissão da família: “Haverá emprego? Voltaremos para o dracma (moeda grega antes do euro)? Meu marido é músico. Estamos em duas profissões de que os gregos se afastaram drasticamente: táxi e diversão.”

Leonidas Vasilopous é um dos universitários gregos que trocaram a diversão por encontros em casa de amigos. “Adoramos ir à taverna, bouzukia (clube grego), mas a crise não permite. Não há dinheiro nem para pagar as contas. Então, nos reunimos em casa. A maioria dos meus amigos está desempregada”, diz Leonidas enquanto entregava jornais, dizendo se considerar sortudo por ter um emprego.

Professores e advogados são os mais afetados

Entre dezenas de profissões, a crise também atingiu drasticamente professores e advogados. Com redução de salários em torno de 300 euros mensais (cerca de R$ 810), professores foram obrigados a se adaptar.

“Tive que mudar para um apartamento menor e cortar teatro e cinema para diminuir as contas mensais. Sempre comprei muitos livros, hoje não é possível”, conta o professor Vasileios Davas.

Davas diz que a crise faz as pessoas se sentirem mais ansiosas e depressivas. Para a advogada Paschalia Petridou, a Grécia passou a ser um país sem futuro.

“Com as novas medidas, não é mais necessário ter advogado para uma série de serviços, como o divórcio. Com isso, nosso trabalho diminuiu drasticamente. Porém, os impostos que pagamos como autônomos aumentaram. Além disso, empresas, como a que trabalho, atrasam meses o pagamento e, se não fosse a ajuda familiar, seria difícil manter o necessário. A situação é tão caótica que no supermercado estamos comprando somente o básico”, desabafa a advogada.

Paschalia ressalta que é difícil viver num país onde, se perder o emprego, não será possível procurar outro, porque não há vagas: “O jeito é ir embora para o exterior.”

Imigrantes também estão retornando aos seus países de origem. “Antes da crise, uma família grega me chamava duas vezes por semana para fazer faxina. Agora, os que não cortaram totalmente me chamam uma vez por mês. A maioria é de aposentados com problemas de saúde”, afirma a búlgara Violeta Cristouma, que mora na Grécia desde 1997.

Segundo Violeta, a maioria dos colegas da Bulgária, Albânia e Rússia perdeu o emprego e voltou para seus países de origem.

Nas principais cidades, lojas fecham as portas

Além de ter levado milhares de gregos a transferir as economias para bancos do exterior, a instabilidade na Grécia trouxe a dúvida sobre se é mais seguro manter o dinheiro em bancos do país ou deixá-lo em casa. “Prefiro guardar o pouco que tenho comigo. Tudo pode acontecer. Me lembra a época de guerra”, comenta a aposentada Ioanna, que prefere não revelar o sobrenome.

A crise não poupou a classe mais favorecida. Segundo Dimitris Liaos, dono de uma loja de equitação, no único hipódromo da Grécia havia, em 2010, 1,5 mil cavalos. Hoje, são 550. “Quem comprou cavalos por hobby não tem mais condição de mantê-los. Ou vendem ou dão de graça. A classe média tinha entrado para o hipismo, mas com a crise não conseguiu se manter”, relata Liaos.

Além disso, segundo o empresário, a Grécia perdeu a credibilidade no Exterior: “fazíamos importação com prazo para pagamento de dois meses, agora temos de pagar à vista. O pequeno e o médio empresário não têm como sobreviver sem crédito”, reclama.

Uma pesquisa da Confederação Nacional do Comércio Grego (Esee) mostrou que, nos últimos dois anos, 68 mil lojas foram fechadas nas principais cidades da Grécia. Espera-se que até o próximo mês mais 53 mil encerrem as atividades. Numa das principais ruas comerciais de Atenas, Stadiou, 32% das lojas cerraram as portas. Em Solonos, foram 40%. No bairro mais caro da capital grega, Kolonaki, das 300 lojas, 71 encerraram atividades no ano passado.

Crédito: Cláudia Machado (Jornalista e cientista política, Cláudia Machado, 33 anos, trabalha na área de jornalismo e redação para empresas de marketing em Atenas, na Grécia. Nascida em Petrópolis (RJ), mora no exterior há uma década.)

Grécia: sinônimo de crise e calote no mundo contemporâneo

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A crise da Europa no jornal brasuca – parte IV

EUROPA SOB MAU TEMPO:

DESPEDIDA DO FUTURO

No encerramento da série sobre a crise da Europa, irlandeses acuados por impostos e desemprego deixam o país ou buscam refúgio em pubs

Depois de terminar 2011 com aumento de Imposto de Renda e a notícia de que o governo pretende cortar 23 mil empregos no setor público até 2015, este ano começou ainda mais caro para os irlandeses. Eles suportam o peso do novo valor do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços, que passou de 21% para 23%, e se preparam para arcar com um novo tributo sobre propriedades – equivalente ao IPTU brasileiro.

Um país que tem emigração em massa como parte da história e que já teve dias de glória como Tigre Celta – referência ao crescimento rápido do início dos anos 2000 – agora é mais uma vítima da turbulência econômica. Que, mais uma vez, muda a vida de seus cidadãos. Sean O’Saor, 30 anos, bancário, não consegue ver na Irlanda um futuro para sua carreira.

“O banco em que eu trabalhava perdeu mais da metade dos lucros, e muitos perderam promoções e o emprego. Nossos clientes eram irlandeses e estrangeiros que estavam com grandes problemas. Então, decidi deixar o país antes que ficasse ainda pior”, conta.

O’Saor vive há um ano e meio em Luxemburgo, país da zona do euro que ficou praticamente imune à crise e continua a ter a maior renda per capita do mundo.

“Eu tenho um projeto. Quero abrir um negócio, mas não acredito que seja possível na Irlanda. A crise está matando os que têm ambição e empurrando o país de volta ao comportamento conservador em busca de segurança”, explica O’Saor.

Até 150 euros no pub

Aos 25 anos, Christopher Coventry, assistente de gerente no varejo, quis investir na compra de um imóvel antes da crise, e o fez por meio de um banco. Quando a bomba econômica estourou, vendas e comércio foram afetados, sua renda diminuiu com os impostos e com a redução nas horas de trabalho. Não achou outro emprego que permitisse pagar a casa comprada dois meses antes.

“Fui mal orientado pelo banco, que disse ser o momento certo para comprar imóveis. Eles só queriam empurrar o financiamento. Ao renegociar, só ofereceram 8% de redução. Passei a trabalhar mais por menos e cheguei a dormir no chão da casa dos meus pais”, diz Coventry.

Coventry deixou família e amigos para viver no Canadá, onde trabalha na mesma função. Só assim está conseguindo pagar o financiamento da casa. “Precisei deixar a Europa em busca de trabalho. Se depender da minha vontade, não volto nunca mais”, afirma.

Stephen Dunne perdeu o emprego de consultor em empresa de recrutamento. “Precisei morar com minha mãe. Aos 25 anos, não deveria mais estar dependendo dela”, lamenta.

Ele é dono de uma loja de conveniência ao Norte do condado de Dublin. Os moradores passaram a comprar em grandes supermercados, e trabalhadores, a levar suas refeições, o que diminuiu o movimento da loja.

“Tive sorte de conseguir renegociar o aluguel do prédio, que reduziu 40% nesses quatro anos. Se o proprietário não entendesse minha situação, eu teria perdido meu negócio”, diz.

É impossível falar da Irlanda sem lembrar de seus pubs, hoje refúgios da tensão. Mesmo em um momento de fazer economia, esse tipo de gasto tem sido difícil de cortar para os irlandeses. O pint, copo com 500 ml de cerveja, ainda custa entre 5,50 euros e 6,10 euros. É comum ouvir um irlandês dizer que gastou 150 euros em apenas uma noite.

Crédito: Leandro Rocha (O jornalista Leandro Rocha, 32 anos, vive na Irlanda há cinco anos. Natural de Campo Grande (MS), é estudante de marketing.)

Mesmo em crise, o dinheiro do pint é sagrado

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A crise da Europa no jornal brasuca – parte III

EUROPA SOB MAU TEMPO:

O FIM DO CIRCO DA SONEGAÇÃO

No quarto dia da série sobre a crise na Europa, como o dolce far niente perdeu a doçura e hoje amarga a vida dos italianos

Paola Pronzato vive em uma colina perto da cidade de Viareggio, na região da Toscana, conhecida por sua indústria naval. Todos os dias, agradece por contar com o apoio financeiro da mãe aposentada e da irmã jornalista. Assim como milhares de italianos, Paola sofre no dia a dia os sintomas da crise econômica do país.

“A editora para a qual trabalho como secretária perdeu muitos clientes, e alguns funcionários foram mandados para casa. Tivemos horas de trabalho e salários reduzidos”, conta Paola, que agora complementa a renda como faxineira.

Mãe de dois adolescentes e recém-separada do marido que não lhe dá pensão alimentícia, Paola recebe o seguro-desemprego há mais de um ano.

A jovem Jessica Laveni, 20 anos, de Milão, enfrenta problemas semelhantes. Depois de um frustrado vestibular para o curso de design, decidiu que era hora de trabalhar. Mas o sonho do primeiro emprego ainda não se realizou. Estágios não remunerados e contratos temporários são os únicos resultados no currículo da jovem. “Gostaria de trabalhar em design, mas agora estou disposta a aceitar qualquer outra coisa, como vendedora de loja e caixa de supermercado. Melhor do que ficar em casa sem fazer nada.”

Em um país onde o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi dava sua benção em público a quem sonegava impostos, é de se esperar que tal prática seja comum entre os italianos. Muitos deles se orgulhavam de burlar o sistema fiscal. Esse tipo de prática de alguns cidadãos ajudou de alguma forma a criar uma situação que hoje abala a vida de Paola e Jessica.

As autoridades fiscais da Itália afirmam que o país perde cerca de US$ 15 bilhões por ano em receitas não declaradas, ou seja 17,5% do produto interno bruto (PIB) é sonegado. Esse é o terceiro maior índice da Europa, atrás somente de Malta e Grécia. “Sonegação é um grande problema na Itália. Mas a crise se deve sobretudo à perda de confiança e credibilidade do país no mercado internacional. Infelizmente, assim como na vida, a traição pode durar um segundo, mas reconquistar a confiança requer muito tempo”, diz o vice-diretor da revista econômica “Il Mondo”, Fabio de Rossi.

Para resolver o problema da crise, o atual primeiro-ministro, Mario Monti, lançou um pacote de austeridade fiscal de 30 bilhões de euros, aprovado pelo Senado no fim de 2011. As novas medidas permitem que o fisco vasculhe as contas bancárias dos italianos para confirmar se o valor dos depósitos está de acordo com a renda declarada. E os ajustes não param aí: revisão da idade para aposentadoria, liberalização dos preços de alguns setores, horário flexível para o comércio, venda de alguns medicamentos em supermercados, entre outros.

A Itália que sonega impostos, não paga taxas e trabalha informalmente também tem medo de acabar como a vizinha Grécia. O que não se explica, para muitos, são algumas anomalias. Segundo o fisco, quase metade dos barcos com mais de 10,7 metros pertencem a pessoas que declaram renda inferior a 26 mil euros (R$ 58,6 mil) ao ano. Os donos de 604 aviões particulares declaram rendas anuais entre 26 mil e 65 mil euros (R$ 146,5 mil).

Crédito: Fernanda Massarotto (Paulistana, a jornalista Fernanda Massarotto, 42 anos, mora há oito anos em Milão. Escreve sobre futebol, design, moda, turismo e economia)

O fim do dolce far niente italiano

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A crise da Europa no jornal brasuca – parte II

EUROPA SOB MAU TEMPO:

DESEMPREGADOS ENCHEM AS RUAS

No terceiro dia da série sobre a crise na Europa, a descrença dos espanhóis chega até a monarquia

Queda na bolsa de valores, aumento da dívida, resgate, recessão, risco-país. A cada dia, novos indicadores tumultuam o cotidiano dos espanhóis. O vocabulário das ruas se mescla ao do noticiário, e todos, além de treinadores de futebol, agora são analistas econômicos.

Enquanto Mariano Rajoy terminava seu primeiro discurso como novo primeiro-ministro espanhol, no final de dezembro, um senhor comentava com outro: “Mais de uma hora de discurso, e a única coisa de que lembramos é que ele quer passar todos os feriados para segundas-feiras.” A observação reflete como a crise econômica afeta o modo de vida espanhol. Assim como para os brasileiros, para eles os feriados são sagrados, e abrir mão será uma dura obrigação.

Quando o número de desempregados passa de 5 milhões – mais de um a cada dez habitantes – e fica cada vez mais difícil prever o que irá acontecer nos próximos meses, os espanhóis começam a colocar em xeque até o que antes parecia inquestionável.

Combinado aos sacrifícios impostos à população, um escândalo de desvio de dinheiro que envolveu o genro do rei Juan Carlos obrigou a tradicional monarquia, pela primeira vez desde a redemocratização, a tornar públicas suas contas. Os valores, que chegam a 1 milhão de euros por ano, indignaram a população. A notícia veio à tona no fim de 2011. Na época, a Espanha já era conhecida por abrigar algumas das maiores marchas de protesto da Europa, comandadas pelos autodenominados Indignados.

O desemprego é o que mais preocupa os espanhóis. Um exemplo da falta de perspectivas é dado por duas profissionais da área de comunicação que trabalhavam sob contrato temporário – o mais comum neste momento – e foram demitidas na véspera do Natal. A explicação da empresa: todos os negócios voltados ao mercado espanhol haviam sido cancelados, e a empresa passaria a atender a outro país. Como as amigas, de 25 e 35 anos, não tinham experiência no novo mercado, seus postos seriam ocupados por outros.

A funcionária mais antiga dizia estar tranquila, pois com seu salário-desemprego poderia viver alguns meses. Já a mais nova, que ingressara há pouco no mercado de trabalho, estava apavorada – seu contrato não lhe dava direito ao seguro, e a possibilidade de encontrar um novo trabalho era remota. Mais de um mês depois, as duas espanholas ainda estão desempregadas.

Cresce barreira a estrangeiros

Esta não é a primeira crise enfrentada pela Espanha, mas já está entre as mais duras. Os que atravessaram outros períodos de dificuldade econômica, como a do início dos anos 90, acreditam que o momento está servindo para chamar a atenção da população para a necessidade de se adaptar às mudanças e não temer as adversidades. Tal como está a economia, é impossível saber o que vai acontecer, mas tudo indica que uma nova alta de impostos se aproxima.

A crise afeta também estrangeiros que estão na Espanha. Muitos, ainda com a velha ilusão de fazer dinheiro na Europa e depois voltar aos seus países, continuam desembarcando no país. A maioria dos jovens que conheço e estudam em Madri são venezuelanos. Para eles, a situação está muito difícil, mas ainda não se compara à de seu país.

Hoje, segundo dados do Instituto Nacional de Estatísticas (INE), quase 10% da população da Espanha é formada por estrangeiros. Aqueles que já estavam no país antes de 2008 e têm algum tipo de formação seguem com seus trabalhos, mas já avaliam a possibilidade de voltar à terra natal. Os que estão chegando agora encontram ainda mais barreiras para entrar e permanecer. Entre empregar um espanhol e um estrangeiro, as empresas optam por cidadãos locais.

Crédito: Tatiana Mantovani (Tatiana Mantovani, 28 anos, é jornalista e vive em Madri. Atua na área de marketing e gestão de conteúdo para uma página de internet na capital espanhola)

Na Espanha, de cada 10 pessoas, 1 está desempregada

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Surfistas de sofá

Sou membro do Couchsurfing há pelo menos 5 anos. Só tive boas experiências com o projeto. Tenho dezenas de histórias para contar e também já ouvi um bocado sobre as experiências de amigos e conhecidos.

A primeira vez que usei o site mesmo a sério foi em 2007. Eu planejava uma viagem ao Rio de Janeiro no verão de 2008 e decidi fazer alguns amigos cariocas antes do embarque. Conheci o Flávio, a Bianca e a Ane. Mantenho contato com eles até hoje via Facebook.

Algum tempo depois, encontrei-me em Porto Alegre com dois peruanos que estavam a viajar pela América Latina há seis meses. Eles estavam percorrendo o Brasil pegando carona com caminhoneiros na estrada. Mal tinham dinheiro para comer – muito embora tivessem o suficiente para gastar com bebida a se emborrachar. Levei-os a um bar da minha cidade, um dos mais baratos que eu conhecia na época. Ouvi boas histórias naquela noite, e guardei para mim um conselho: “Visite Bogotá, mas não vá a Lima.” Talvez um dia eu faça isso 🙂

Mas é claro que foi na Europa que eu tive as maiores experiências. Aqui no Brasil (e isso se aplica a toda América Latina, África e parte da Ásia), as pessoas são mais desconfiadas com esse tipo de coisa. Como vou colocar uma pessoa que nem conheço dentro da minha casa? E se me roubar, sequestrar, matar enquanto durmo? Enfim, os terceiro-mundistas temem mais quanto a segurança, e eu me incluo nisso. Acho mais fácil surfar no sofá alheio se estiver no hemisfério Norte.

Decidi começar a receber pessoas depois de quatro meses morando em Portugal. Encontrei com alguns CS’s antes disso, apenas para um meet for coffee or drink. No entanto, eu não estava apta a receber qualquer um que quisesse usar minha casa como dormitório. O interessante do Couchsurfing é a troca. Realmente conhecer alguém que possa fazer alguma diferença na sua vida – nem que isso se resuma a apenas alguns dias saindo da rotina.

Em meio às mensagens da minha inbox, simpatizei com uma polaca, oriunda de uma cidade a qual eu não sabia pronunciar o nome corretamente, mas hoje me orgulho de ter aprendido: Wroclaw (não se lê “vrôclau”, mas sim “vrôtzlav”!). Asia tinha fotos engraçadas no perfil. Chegou ao Porto no início do verão de 2009, acompanhada do namorado e do filho dele, uma criança de cinco anos (sim, eu recebi uma criança de cinco anos em casa e não a matei!)

Pediram inicialmente para ficar três dias, que viraram cinco e se transformaram em 1 semana. Depois, seguiram para o sul de Portugal, retornando novamente para a minha casa após algumas semanas.

Tive alguns outros hóspedes naquelas primeiras semanas do verão, até que, em julho de 2009, fui eu que comecei a surfar no sofá alheio.

Com algumas dificuldades, arrumei um couch em Barcelona (a Asia me ajudou recomendando algumas pessoas que tinham respondido a ela na época em que viajou pra lá). Fui a primeira hóspede de Catriel, um argentino que morava há algum tempinho na Catalunha. Ele trabalhava como ator e vivia num apartamento daqueles bem antigos, pertinho do centro de Barcelona. Tinha uma companheira de casa que era do país basco e se referia a mim como “chica guapa”. Não lembro o nome dela. Só sei que é uma das mulheres mais bonitas que conheci na vida, apesar de ter a cabeça raspada (se bem que dizem por aí que essa é a melhor maneira de saber quem é verdadeiramente belo: tirar-lhe os cabelos!).

Como o apartamento tinha três dormitórios, fiquei com um quarto só para mim. Não posso dizer que foram as melhores acomodações do mundo, mas tinha uma cama com lençóis limpos e uma sacada que não conseguia acessar porque a porta estava emperrada, além de milhares de sacos plásticos e entulhos espalhados por um armário que estava caindo aos pedaços.

Infelizmente Catriel havia quabrado o pé dois dias antes de eu chegar, portanto não pôde me mostrar a cidade. Apesar disso, me deu alguns mapas de Barcelona e me explicou os pontos imperdíveis. Combinamos pela Internet que eu ficaria por três noites, mas acabei ficando uma a mais – claro que perguntei a ele e a basca se poderia, e lembro que ela disse: “Sí, sí guapa, claro que sí.”

Eu e Catriel, que insistiu em posar com a cortina do apê

Em Barcelona encontrei pessoalmente com Pierre, CS da parte francesa do Canadá. Ele havia me enviado uma mensagem pedindo pouso no Porto. Informei a ele que estaria em Madrid e depois iria Barcelona, por isso não poderia hospedá-lo. As datas de nossa viagem coincidiram, e decidimos nos encontrar em Barcelona. Comemoramos seu aniversário juntos, jantando paella em algum dos restaurantezinhos perto da Rambla.

Aliás, mantenho contato com o Pierre até hoje. Atualmente ele está vivendo em Paris, num pequeno apartamento perto do Moulin Rouge, segundo me informou.

Com Pierre em Barceloneta

Foi uma colega de Faculdade que me indicou um couch na Áustria. Apesar de dizerem que Viena é um dos lugares mais fáceis para descolar um, tive dificuldades. Steffanie me passou o link do perfil da Kathalena, amiga de sua irmã.

Algumas trocas de mensagem depois, Kath me passou as indicações de como chegar a sua casa tim-tim por tim-tim. Combinamos que eu estaria lá por volta das 17h, o que não aconteceu. Acabei demorando mais do que o esperado em Blatislava (minha cidade preferida na Europa!) e peguei o ônibus mais tarde. Nesse dia, eu não estava sozinha, mas sim com meu amigo polaco Karol, que conheci em Erasmus.

Enviei uma mensagem a ela avisando que chegaria atrasada, por volta das 20h. E foi mais ou menos isso que aconteceu. Lembro que saímos do ônibus e pegamos o metro em direção a casa dela. Saímos na estação correta, seguimos as indicações que ela havia passado (caminhar duas quadras e virar a esquerda). Mal estávamos na esquina, e a vi sentada na janela de casa nos esperando. A primeira coisa que ela disse foi: “You are late and I don’t like people who are late.” Subimos. Ela nos recebeu na porta, pediu que tirássemos os sapatos, me deu a chave do apartamento, explicou como eu alimentava o gato, como ligava o chuveiro e disse para eu não comprar comida, pois ela tinha o suficiente em casa. Já estava quase fechando a porta de casa, quando retornou: “Vou dormir na casa do meu namorado, fiquem à vontade.” Eu e Karol tivemos nosso próprio apartamento em Viena por duas noites.

"Nossa" cozinha em Viena

Eu nunca tinha pensado em conhecer Wroclaw. Aliás, eu nem sabia que essa cidade existia antes da Asia aparecer na minha vida. Decidi que poderia visitá-la no caminho para Varsóvia, afinal o trem passaria por ali e custava nada ficar por uns dias. Enviei mensagem a ela para dormirmos no apartamento do seu namorado, pois ela vivia com o pai e eu estava viajando com o Karol.

O namorado da Asia nos passou um número de táxi para quando chegássemos na cidade – o trem passava por Wroclaw às 4 da matina, então não haveria ônibus. Acontece que há dezenas de táxis na Polônia que não são mesmo táxis, ou melhor, são clandestinos. O número que tínhamos era um desses, que, segundo o que nos informaram, seria mais barato.

Confesso que tive um pouco de receio, mas como o Karol é polonês não me pareceu tão mal assim. O táxi marcou conosco no posto de combustíveis ao lado da estação de trem. Ficamos meio de “tocaia”, pois o plano era esperar o motorista estacionar, “dar uma conferida” se parecia boa gente e só então embarcar. Como eu estou viva hoje para contar a história, presume-se que nada me aconteceu naquela madrugada. Enfim, o “esquema” é mesmo tranquilo, e nos custou cerca de 6 euros por quase 15 minutos de corrida. Bagatela. O “taxista” nos contou que o carro tinha placa francesa, pois é possível comprar usados muito baratos por lá, o que vale a pena para o pessoal do leste europeu.

Eu, Asia, namorado da Asia e filho do namorado da Asia de lancha nos canais de Wroclaw, a cidade das ilhas

Na virada de 2009-2010, participei do CouchSurfing Winter Camp em Budapeste. Foi o melhor Ano Novo da minha vida (até hoje!). Tivemos algumas atividades com o grupo, e duas festas bem legais. Numa dela, cada pessoa trazia uma bebida de seu país – eu tive que levar os ingredientes da sangria portuguesa, pois não havia cachaça disponíveis nos non-stops húngaros.

Desde agosto de 2011, o Couchsurfing deixou de ser uma organização sem fins lucrativos. Acho mais do que justo. As pessoas que organizam essa corrente devem sim receber por conta disso. As boas iniciativas do mundo também devem ser bem recompensadas.

Costumo recomendar o site para quem sai de intercâmbio, mas sempre alerto para estarem cientes da real função do projeto. Mais do que um lugar para dormir “de grátis”, o CS é uma troca de experiências. Para manter a ideia ativa, é importante que os indivíduos cadastrados zelem de verdade por essa iniciativa. Sou defensora ferrenha dessa ideologia, e recomendo àqueles que querem apenas economizar na viagem que procurem um hostel baratinho.

E para os que acham uma experiência perigosa, #ficadica do vídeo abaixo, que está na capa do site novo.

E falando em perigo…

Minha amiga Gabriella viajou com mais cinco amigos a Amsterdão. Eram 3 meninas e 3 meninos. Ficaram na casa de um couchsurfer que morava sozinho. Dormiram os seis na sala do apartamento do cara, que era “muito gente fina”, segundo ela me contou. Ele inclusive pagou pizza para eles na primeira noite.

No segundo dia, eles descobriram algo estranho na geladeira. Um pote, com um líquido que parecia sangue e algumas coisas boiando dentro. Mexeram um bocado, sacudiram e decidiram abrir. Era uma orelha humana. Em outro pote havia dedos humanos.

Os seis então fizeram uma pequena reunião e decidiram ir embora na mesma hora. No entanto, estava frio e escuro. Além disso, a casa ficava um bocado longe do centro, e eles não sabiam se haveria transporte até lá. Também não sabiam se os hostels teriam vagas. Então mudaram de ideia: dormiriam mais aquela noite por ali mesmo e saíram bem cedo no outro dia.

A porta da sala onde eles dormiram não tinha chave. Eles então empilharam as mochilas em frente a porta, para dificultar o acesso, caso o então assassino holandês decidisse cortar partes dos seus corpos durante a noite…

Mas é claro que isso não aconteceu! Apesar disso, Gabi e os outros devem ter passado por verdadeiros momento de tensão hehe

Mais tarde, quando o dono da casa chegou, alguém tomou coragem e acabou por perguntar o que tinha naqueles potes. O holandês contou que era maquiador – ou algo assim – e disse ter essas “partes humanas” (que eram de mentirinha) na geladeira para assustar as meninas com quem passava a noite. Pela manhã, pedia a elas para irem buscar água na geladeira. A mulher abre a porta e vê potes com dedos ou orelhas boiando. O que faz? Vai embora na mesma hora, sem dar explicações ou causar desconfiança… ninguém vai arriscar a sorte com um estripador.

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Marimbar para o código moral dos credores

Admito. Eu tive que pesquisar o significado da palavra marimbar. Às vezes eu não sei ao certo se uma palavra é portuguesa ou brasileira – ou então eu uso essa desculpa esfarrapada para justificar meu pequeno lampejo de ignorância. Marimbar é sinônimo de calote, golpe. Na minha opinião, é isso o que os portugueses deveriam fazer.

Ok. Talvez eu não esteja pensando em todas as consequências. Calotear a União Europeia seria uma punhalada nas costas de Angela Merkel e companhia. Acabaria com os ideais defendidos por Winston Churchill quando pensou numa Europa unida para evitar a guerra. Talvez, marimbar a dívida levaria ao fim do euro ou seria o estopim da terceira Guerra Mundial.

Hoje me deparei com esse artigo de Bruno Faria Lopes, publicado em 23 de dezembro. O autor questiona o porquê dos portugueses honrarem a dívida de seu país. Sem entrar no mérito dos efeitos do não-pagamento, honrar a dívida parece ser mais uma questão moral do que econômica. Afinal, quem empresta dinheiro assume riscos. E esses riscos são minimizados através da cobrança de juros – até porque os credores acreditam que nem todos os devedores serão mau pagadores, penalizando os que não honram o compromisso do pagamento.

Mas voltando à questão do pagamento da dívida portuguesa, isso seria bom para quem mesmo? Ao povo, de certo, não. A crise se faz sentir justamente porque afeta o bolso do trabalhador, que está agora usando seu salário apenas para comprar comida e pagar renda. Pelo menos 99% dos portugueses devem estar agindo assim. Sem sonhos de viagens internacionais nas férias ou fartas compras de Natal. Todos cooperando para pagar uma dívida que ajudaram a criar involuntariamente. Afinal, de quem é culpa das más políticas de Estado? Daqueles que votam ou dos que são mais votados e assumem o poder? Aliás, em Portugal, a culpa pode ser também daqueles que se abstêm, pois o voto não se faz obrigatório.

Pagar ou não pagar é uma questão? Fico a pensar nas consequências dessa escolha, isso é, se as duas hipóteses existissem – pois parece que a dívida vai ser mesmo honrada (para o bem do povo e felicidade geral da União Europeia).

Clique na imagem para ampliar. Daí pode-se ler o artigo 🙂

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Aniversário, Natal e Ano Novo longe de casa

Eu sempre fico muito agitada nos dez últimos dias do ano. No 21 comemoro meu nascimento. Em 25, é a festa do nascimento de Jesus. Na noite do 31, nasce um novo ano. É um bocado de coisa para comemorar em apenas dez dias! Fico até mais-agitada-que-o-normal nesses dias…

Nos últimos dois anos (2009 e 2010), comemorei aniversário, Natal e Ano Novo longe de casa. No primeiro ano foi um pouco estranho. A gente nunca sabe muito bem o que fazer ou como comemorar. Mas acho que isso é trauma de primeira vez. Depois dá para encarar tranquilo a sensação de peixe-fora-do-aquário-longe-da-família-e-dos-amigos.

Sempre faz calor no meu aniversário. É o dia de maior insolação no Hemisfério Sul do planeta Terra, ou seja, temos pelo menos 14 horas de dia claro. É solstício de verão, marcando o início da estação mais quente do ano. Bom, pelo menos, era essa a imagem que eu sempre tive antes de viver na Europa.

Em 2009 fiz um diário fotográfico do meu aniversário por dois motivos. Primeiro pelo simples registro da comemoração diferenciada da data que eu mais gosto no ano. Segundo para postar aqui no blog como parte da minha experiência de vida em Portugal.

Em 2010, comemorei meu aniversário só porque meu amigo André insistiu. Eu tinha dois trabalhos (um no shopping e outro num hostel), mas as aulas na faculdade já tinha entrado em recesso de final de ano. Fui comer uma Francesinha com os amigos a noite, num restaurante na Boavista. Minha amiga Alice fez meu bolo (aliás, ela é a melhor fazedora-de-bolos-de-aniversário que eu conheço!). O jantar foi rapidinho, pois eu tinha que acordar cedo no dia seguinte, mas valeu a pena.

Eu tinha esquecido da câmera fotográfica quando saí de casa de manhã, então liguei para minha amiga Tati levar a dela. Tiramos algumas fotos, só para gravar o momento mesmo. Eu pedi a Tati que me enviasse as fotos diversas vezes, e nada! Até que ontem, dia 21 de dezembro de 2011, eu pedi novamente. Aliás, ontem foi meu aniversário (de novo!) então ela poderia fazer um esforço e me enviar as fotos como presente.

Filipe, eu, bolo da Alice e André. Obrigada pela foto, Tati 🙂

Meu primeiro Natal em Portugal pareceu mais com “uma festa na casa de alguém”. Cada um levava sua bebida (e, nesse caso, algo para comer). E pronto, foi isso. Conheci algumas pessoas, conversei com os amigos e comi um bocado. Em 2010, passei o Natal na casa dos meus sogros. Foi uma experiência diferente, especialmente pela comida. Ao invés de peru, tivemos algum fruto do mar (lulas, se não me engano). No entanto, achei melhor passar a noite com uma família, pois acho que esse é o verdadeiro sentido do Natal – mesmo isso parecendo um pouco piegas talvez… Enfim, ganhei presente e tudo do Pai Natal (leia-se “minha sogra” hehe).

Natal de 2009 com conhecidos e nem-tão-conhecidos-assim

O Natal de 2009 foi espetacular. Conheci meu namorado em outubro (na época, obviamente, ele não era meu namorado, mas sim um desconhecido). Enfim, o tal desconhecido logo me convidou para ir viajar no Ano Novo para Budapeste. Eu fiz cara de “você-é-doido-acabou-de-me-conhecer”, mas acabei aceitando (vai ver porque eu sou doida também).

Em Budapeste faz MUITO frio no final do ano. FRIO FRIO e FRIO. Foi lá que eu vi neve pela primeira vez – foi pouquinho, mas eu me recordarei pra sempre! Apesar da sensação de freezer, as pessoas saem a rua para assistir shows em palcos montados em praças. Há centenas de barraquinhas vendendo perucas e outros acessórios coloridos. Algumas outras barraquinhas vendem vários tipos de comidas e bebidas. As lojinhas non-stop ficam non-stop de gente entrando e saindo. Foi bem legal 🙂

Em Budapeste no último dia de 2009

Em 2010, passei o Ano Novo no Porto. Um pessoal do couchsurfing estava a enviar convites para uma festa no quarto andar de um prédio semi-abandonado no centro do Porto, na avenida dos Aliados. Lá de cima dava pra ver toda a multidão aguardando pelos fogos, que saem por detrás e do topo da Câmara do Porto. Foi legal também.

Acho que Ano Novo na Europa é tudo de bom. Talvez o Natal não seja tão bom assim porque se está longe da família… Comemorar o aniversário longe de casa também é algo do qual não sou muito fã. Gosto de reunir meus amigos todos e não só parte deles. O que posso dizer dessas experiências? É que na segunda vez é muito melhor 🙂

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