Surfistas de sofá

Sou membro do Couchsurfing há pelo menos 5 anos. Só tive boas experiências com o projeto. Tenho dezenas de histórias para contar e também já ouvi um bocado sobre as experiências de amigos e conhecidos.

A primeira vez que usei o site mesmo a sério foi em 2007. Eu planejava uma viagem ao Rio de Janeiro no verão de 2008 e decidi fazer alguns amigos cariocas antes do embarque. Conheci o Flávio, a Bianca e a Ane. Mantenho contato com eles até hoje via Facebook.

Algum tempo depois, encontrei-me em Porto Alegre com dois peruanos que estavam a viajar pela América Latina há seis meses. Eles estavam percorrendo o Brasil pegando carona com caminhoneiros na estrada. Mal tinham dinheiro para comer – muito embora tivessem o suficiente para gastar com bebida a se emborrachar. Levei-os a um bar da minha cidade, um dos mais baratos que eu conhecia na época. Ouvi boas histórias naquela noite, e guardei para mim um conselho: “Visite Bogotá, mas não vá a Lima.” Talvez um dia eu faça isso 🙂

Mas é claro que foi na Europa que eu tive as maiores experiências. Aqui no Brasil (e isso se aplica a toda América Latina, África e parte da Ásia), as pessoas são mais desconfiadas com esse tipo de coisa. Como vou colocar uma pessoa que nem conheço dentro da minha casa? E se me roubar, sequestrar, matar enquanto durmo? Enfim, os terceiro-mundistas temem mais quanto a segurança, e eu me incluo nisso. Acho mais fácil surfar no sofá alheio se estiver no hemisfério Norte.

Decidi começar a receber pessoas depois de quatro meses morando em Portugal. Encontrei com alguns CS’s antes disso, apenas para um meet for coffee or drink. No entanto, eu não estava apta a receber qualquer um que quisesse usar minha casa como dormitório. O interessante do Couchsurfing é a troca. Realmente conhecer alguém que possa fazer alguma diferença na sua vida – nem que isso se resuma a apenas alguns dias saindo da rotina.

Em meio às mensagens da minha inbox, simpatizei com uma polaca, oriunda de uma cidade a qual eu não sabia pronunciar o nome corretamente, mas hoje me orgulho de ter aprendido: Wroclaw (não se lê “vrôclau”, mas sim “vrôtzlav”!). Asia tinha fotos engraçadas no perfil. Chegou ao Porto no início do verão de 2009, acompanhada do namorado e do filho dele, uma criança de cinco anos (sim, eu recebi uma criança de cinco anos em casa e não a matei!)

Pediram inicialmente para ficar três dias, que viraram cinco e se transformaram em 1 semana. Depois, seguiram para o sul de Portugal, retornando novamente para a minha casa após algumas semanas.

Tive alguns outros hóspedes naquelas primeiras semanas do verão, até que, em julho de 2009, fui eu que comecei a surfar no sofá alheio.

Com algumas dificuldades, arrumei um couch em Barcelona (a Asia me ajudou recomendando algumas pessoas que tinham respondido a ela na época em que viajou pra lá). Fui a primeira hóspede de Catriel, um argentino que morava há algum tempinho na Catalunha. Ele trabalhava como ator e vivia num apartamento daqueles bem antigos, pertinho do centro de Barcelona. Tinha uma companheira de casa que era do país basco e se referia a mim como “chica guapa”. Não lembro o nome dela. Só sei que é uma das mulheres mais bonitas que conheci na vida, apesar de ter a cabeça raspada (se bem que dizem por aí que essa é a melhor maneira de saber quem é verdadeiramente belo: tirar-lhe os cabelos!).

Como o apartamento tinha três dormitórios, fiquei com um quarto só para mim. Não posso dizer que foram as melhores acomodações do mundo, mas tinha uma cama com lençóis limpos e uma sacada que não conseguia acessar porque a porta estava emperrada, além de milhares de sacos plásticos e entulhos espalhados por um armário que estava caindo aos pedaços.

Infelizmente Catriel havia quabrado o pé dois dias antes de eu chegar, portanto não pôde me mostrar a cidade. Apesar disso, me deu alguns mapas de Barcelona e me explicou os pontos imperdíveis. Combinamos pela Internet que eu ficaria por três noites, mas acabei ficando uma a mais – claro que perguntei a ele e a basca se poderia, e lembro que ela disse: “Sí, sí guapa, claro que sí.”

Eu e Catriel, que insistiu em posar com a cortina do apê

Em Barcelona encontrei pessoalmente com Pierre, CS da parte francesa do Canadá. Ele havia me enviado uma mensagem pedindo pouso no Porto. Informei a ele que estaria em Madrid e depois iria Barcelona, por isso não poderia hospedá-lo. As datas de nossa viagem coincidiram, e decidimos nos encontrar em Barcelona. Comemoramos seu aniversário juntos, jantando paella em algum dos restaurantezinhos perto da Rambla.

Aliás, mantenho contato com o Pierre até hoje. Atualmente ele está vivendo em Paris, num pequeno apartamento perto do Moulin Rouge, segundo me informou.

Com Pierre em Barceloneta

Foi uma colega de Faculdade que me indicou um couch na Áustria. Apesar de dizerem que Viena é um dos lugares mais fáceis para descolar um, tive dificuldades. Steffanie me passou o link do perfil da Kathalena, amiga de sua irmã.

Algumas trocas de mensagem depois, Kath me passou as indicações de como chegar a sua casa tim-tim por tim-tim. Combinamos que eu estaria lá por volta das 17h, o que não aconteceu. Acabei demorando mais do que o esperado em Blatislava (minha cidade preferida na Europa!) e peguei o ônibus mais tarde. Nesse dia, eu não estava sozinha, mas sim com meu amigo polaco Karol, que conheci em Erasmus.

Enviei uma mensagem a ela avisando que chegaria atrasada, por volta das 20h. E foi mais ou menos isso que aconteceu. Lembro que saímos do ônibus e pegamos o metro em direção a casa dela. Saímos na estação correta, seguimos as indicações que ela havia passado (caminhar duas quadras e virar a esquerda). Mal estávamos na esquina, e a vi sentada na janela de casa nos esperando. A primeira coisa que ela disse foi: “You are late and I don’t like people who are late.” Subimos. Ela nos recebeu na porta, pediu que tirássemos os sapatos, me deu a chave do apartamento, explicou como eu alimentava o gato, como ligava o chuveiro e disse para eu não comprar comida, pois ela tinha o suficiente em casa. Já estava quase fechando a porta de casa, quando retornou: “Vou dormir na casa do meu namorado, fiquem à vontade.” Eu e Karol tivemos nosso próprio apartamento em Viena por duas noites.

"Nossa" cozinha em Viena

Eu nunca tinha pensado em conhecer Wroclaw. Aliás, eu nem sabia que essa cidade existia antes da Asia aparecer na minha vida. Decidi que poderia visitá-la no caminho para Varsóvia, afinal o trem passaria por ali e custava nada ficar por uns dias. Enviei mensagem a ela para dormirmos no apartamento do seu namorado, pois ela vivia com o pai e eu estava viajando com o Karol.

O namorado da Asia nos passou um número de táxi para quando chegássemos na cidade – o trem passava por Wroclaw às 4 da matina, então não haveria ônibus. Acontece que há dezenas de táxis na Polônia que não são mesmo táxis, ou melhor, são clandestinos. O número que tínhamos era um desses, que, segundo o que nos informaram, seria mais barato.

Confesso que tive um pouco de receio, mas como o Karol é polonês não me pareceu tão mal assim. O táxi marcou conosco no posto de combustíveis ao lado da estação de trem. Ficamos meio de “tocaia”, pois o plano era esperar o motorista estacionar, “dar uma conferida” se parecia boa gente e só então embarcar. Como eu estou viva hoje para contar a história, presume-se que nada me aconteceu naquela madrugada. Enfim, o “esquema” é mesmo tranquilo, e nos custou cerca de 6 euros por quase 15 minutos de corrida. Bagatela. O “taxista” nos contou que o carro tinha placa francesa, pois é possível comprar usados muito baratos por lá, o que vale a pena para o pessoal do leste europeu.

Eu, Asia, namorado da Asia e filho do namorado da Asia de lancha nos canais de Wroclaw, a cidade das ilhas

Na virada de 2009-2010, participei do CouchSurfing Winter Camp em Budapeste. Foi o melhor Ano Novo da minha vida (até hoje!). Tivemos algumas atividades com o grupo, e duas festas bem legais. Numa dela, cada pessoa trazia uma bebida de seu país – eu tive que levar os ingredientes da sangria portuguesa, pois não havia cachaça disponíveis nos non-stops húngaros.

Desde agosto de 2011, o Couchsurfing deixou de ser uma organização sem fins lucrativos. Acho mais do que justo. As pessoas que organizam essa corrente devem sim receber por conta disso. As boas iniciativas do mundo também devem ser bem recompensadas.

Costumo recomendar o site para quem sai de intercâmbio, mas sempre alerto para estarem cientes da real função do projeto. Mais do que um lugar para dormir “de grátis”, o CS é uma troca de experiências. Para manter a ideia ativa, é importante que os indivíduos cadastrados zelem de verdade por essa iniciativa. Sou defensora ferrenha dessa ideologia, e recomendo àqueles que querem apenas economizar na viagem que procurem um hostel baratinho.

E para os que acham uma experiência perigosa, #ficadica do vídeo abaixo, que está na capa do site novo.

E falando em perigo…

Minha amiga Gabriella viajou com mais cinco amigos a Amsterdão. Eram 3 meninas e 3 meninos. Ficaram na casa de um couchsurfer que morava sozinho. Dormiram os seis na sala do apartamento do cara, que era “muito gente fina”, segundo ela me contou. Ele inclusive pagou pizza para eles na primeira noite.

No segundo dia, eles descobriram algo estranho na geladeira. Um pote, com um líquido que parecia sangue e algumas coisas boiando dentro. Mexeram um bocado, sacudiram e decidiram abrir. Era uma orelha humana. Em outro pote havia dedos humanos.

Os seis então fizeram uma pequena reunião e decidiram ir embora na mesma hora. No entanto, estava frio e escuro. Além disso, a casa ficava um bocado longe do centro, e eles não sabiam se haveria transporte até lá. Também não sabiam se os hostels teriam vagas. Então mudaram de ideia: dormiriam mais aquela noite por ali mesmo e saíram bem cedo no outro dia.

A porta da sala onde eles dormiram não tinha chave. Eles então empilharam as mochilas em frente a porta, para dificultar o acesso, caso o então assassino holandês decidisse cortar partes dos seus corpos durante a noite…

Mas é claro que isso não aconteceu! Apesar disso, Gabi e os outros devem ter passado por verdadeiros momento de tensão hehe

Mais tarde, quando o dono da casa chegou, alguém tomou coragem e acabou por perguntar o que tinha naqueles potes. O holandês contou que era maquiador – ou algo assim – e disse ter essas “partes humanas” (que eram de mentirinha) na geladeira para assustar as meninas com quem passava a noite. Pela manhã, pedia a elas para irem buscar água na geladeira. A mulher abre a porta e vê potes com dedos ou orelhas boiando. O que faz? Vai embora na mesma hora, sem dar explicações ou causar desconfiança… ninguém vai arriscar a sorte com um estripador.

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Ai se eu te pego na Europa

A reportagem de abertura do Fantástico deste domingo, 15 de Janeiro, foi o sucesso de Michel Teló na Europa. Ele foi a Península Ibérica para duas apresentações em Portugal e quatro na Espanha, além de inúmeras entrevistas e participações em programas de tv.

O Fantástico aproveitou para proporcionar o encontro de Teló com Cristiano Ronaldo, que, segundo o que dizem, foi responsável pelo sucesso de “Ai se eu te pego” do outro lado do Atlântico, depois de comemorar um gol do Real Madrid com a dancinha já famosa cá.

A primeira vez que eu ouvi falar de Michel Teló foi na Europa. Fui a festa de despedida de um amigo brasileiro que estava retornando ao Brasil. Ele me mostrou “Fugidinha”. Outro amigo, que é do Mato Grosso do Sul, disse que conhecia o Michel Teló. Parece que um amigo dele era primo do Teló ou algo assim, e eles se conheciam pessoalmente. Claro, na época, Michel Teló não devia nem sonhar que um dia faria sucesso na Europa, conheceria o Cristiano Ronaldo e que um monte de gente que não fala a língua dele cantaria sua música.

Aqui no Brasil há muitas pessoas criticando o sucesso de Michel Teló. Dizem que ouvir e gostar de “Ai se eu te pego” é falta de cultura, coisa de gente de baixo nível. Há, inclusive, cantores e pessoas da mídia falando mal dele. Eu acho isso um absurdo!

Aprendi na Faculdade, em uma aula de Psicologia, que uma pessoa pode ser vista de três formas distintas: 1) como a pessoa se vê; 2) como os outros veem a pessoa; 3) como a pessoa pensa que os outros a veem. E daí, fico a pensar: o Brasil não é uma pessoa, ok. Mas é uma Nação, formatada por diversas identidades, que correspondem também a uma identidade única, pois senão não teria estabelecido seus limites geográficos assim. Ou seja, dá para aplicar essa teoria ao país.

Como o Brasil se vê? O Brasil é o país da esperança para alguns, e das oportunidades para outros. É um país formatado por uma massa sem cultura, e uma elite que administra dinheiro e poder. Mas a elite também pode ser vista como burra, formada por filhinhos de papai que não se prestam a ler um livro. O Brasil é o país das cotas raciais para ingresso na Universidade, pois tivemos escravos até quase o início do século XX. O Brasil é o país do carnaval, das mulheres bonitas, dos bons jogadores de futebol que são exportados ainda moleques. Mas o Brasil também é o país da má alimentação, da subnutrição, do surto de câncer e dos astros do futebol que decidem ficar nos times de cá. Temos a Amazônia, as praias e outras belezas naturais. Mas também temos cidades lotadas, caras, sem infraestruturas básicas ou transporte público. Pode ser o país da fome, da miséria e da injustiça social, ao mesmo tempo que, para alguns, é o lugar certo para gastar um salário mínimo numa noite de balada.

Como os outros veem o Brasil? Há provavelmente os que ligam Brasil a diversão (carnaval, futebol, festa, verão, cerveja, mulher bonita), enquanto outros o remetem a pobreza (favelas, crianças famintas, seca no Nordeste, corrupção social, tráfico de drogas, guerra civil). Deve existir os que somam os dois fatores (um país de gente alegre, mas pobre; um país bonito, mas perigoso). Ainda posso citar gente que acha o Brasil caro, que nunca viveria aqui ou que sonha em passar o resto dos seus dias cá. Do mesmo jeito, há os que acham o Brasil ridiculamente barato e, talvez, o país das oportunidades no momento atual.

Fiquei matutando sobre esse assunto um bocado. Concluí que a maioria das pessoas deve ver o país de uma forma bem particular, afinal somos extremamente plurais aqui. Para escrever sobre como os outros nos veem, tentei lembrar de comentários que ouvi de estrangeiros sobre o país. Impossível não cair em alguns clichês.

Agora, talvez o mais difícil pareça imaginar como o Brasil pensa que os outros o veem. Na minha opinião, é a parte mais fácil. Como o Brasil pensa que os outros o veem? Praia, samba e futebol. E, agora, ainda há o temor de que associem nosso país ao “Ai se eu te pego” de Teló. Mas por que o medo? Se temos mesmo milhares de pessoas dançando, cantando e indo aos shows dele? Não é o gosto por uma música ou o hábito de assistir determinados programas de tv que define se a pessoa é culta ou não.

Detalhe que Michel Teló já gravou “Ai se eu te pego” em inglês. A ideia é “atacar” agora os país de língua não latina 😛

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Portugal no vestibular da UFRGS 2012

Ocorreu na última semana o vestibular 2012 da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a melhor e maior universidade do meu Estado (eu iniciei meus estudos de Geografia lá e pretendo acabá-los se tiver forças…). Apesar de não estar frequentando o curso nos últimos tempos (acabei me formando geógrafa pela Universidade do Porto, apesar de ainda ter a vaga garantida na UFRGS), me candidatei a fiscal do vestibular e fui sorteada. Foram quatro dias de prova, e, pela primeira vez, vi Portugal aparecer nas questões;

Eu tentei o vestibular da UFRGS duas vezes. Fui aprovada na segunda, em 2006. Posso dizer que conheço a maioria das provas do vestibular, pois estudei pelas antigas questões para ingressar na Universidade. Nunca vi qualquer coisa sobre Portugal nas provas.

Aliás, nunca se falou tanto de Portugal e dos irmãos de língua portuguesa no Brasil. Aliás, acredito que a maioria das pessoas por aqui nem sabe que falam protuguês na África, e devem achar esquisita a ideia de existirem pessoas que nasceram falando português na Europa;

Havia uma questão sobre a Revolução dos Cravos na prova de História e alguma pequenina menção à crise europeia (citando a Espanha também, pelo que me recordo).

O pessoal sempre tenta adivinhar o que será o tema de redação. Esse ano, não lembro de ter visto alguém acertar. Na prova, era pedida uma dissertação sobre “a última flor do Lácio”. Havia, inclusive, um textinho estraído do Observatório da Língua Portuguesa, site vinculado a Sapo. Além disso, um gráfico ilustrava os locais onde a língua é falada no mundo – garanto que alguns dos vestibulandos deve ter descoberto que se fala português em São Tomé e Princípe na hora da prova (aliás, e maioria deve continuar sem saber onde fica isso!);

Redação do vestibular da UFRGS 2012: tema era o crescimento da importância da língua portuguesa

Durante o vestibular que conheci Marcelo. Ele foi coordenador do local de prova onde eu trabalhei e é professor na Faculdade de Educação Física da UFRGS. Cursou o Doutorado na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto entre 2003 e 2006, ou seja, tivemos muito assunto durante os quatro dias de vestibular;

O mais interessante é que notei mais uma vez como as pessoas têm lembranças carinhosas da cidade do Porto, e todos que viveram no velho continente acabam por concordar que a qualidade de vida europeia é algo que não se alcança no Brasil – não importa a quantidade de dinheiro que você tenha! Marcelo só não se dava muito bem com os portugueses, em especial “com os vizinhos velhos chatos que chamavam a polícia quando fazia uma festinha no apartamento”.

Marcelo viveu em Matosinhos por três anos com a mulher. Sua primeira filha (hoje com quase 7 anos) nasceu em Portugal. A esposa trabalhava num ginásio em Matosinhos, enquanto ele escrevia a tese;

Ele contou-me uma história curiosa sobre a Queima das Fitas. Talvez eu nunca tenha me dado conta disso por, digamos, ingenuidade (?!), ou apenas não tenha me atentado a esses detalhes: Marcelo disse que viu durante a Queima várias meninas com as chamadas “pílulas do dia seguinte” na bolsa para tomarem caso fizessem alguma coisa com alguém ou alguéns (e esquecem da proteção por causa da quantidade de álcool ingerida).

Eu já sabia que as portuguesas eram mais libertinas que as brasileiras (muito embora a maioria pensem que o oposto é verdadeiro). Confesso que fiquei um pouco assustada ao cogitar essa história como verdade. No entanto, sei de histórias “piores” do que essa que comprovam a tese que o pessoal europeu é sim mais libertino que os povinho da “terra do carnaval”;

E para aqueles que não sabem, a Queima das Fitas é uma grande festa universitária que ocorre durante 8 dias em algumas cidades de Portugal. As mais famosas são a do Porto e a de Coimbra. Os finalistas (graduandos do último ano de curso) desfilam pela cidade, participam de diversos eventos e bebem MUITO. No Porto, a noite, todos se dirigem ao Parque da Cidade para assistir a concertos de música e virar shots nas diversas barraquinhas ali montadas. Eu participei por 2 anos, sempre trabalhando. O ingresso da semana custa cerca de 50 euros.

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“As grandes inverdades” sobre o Pingo Doce

Eu sei gostei da publicidade do Pingo Doce. Acho que a equipe de marketing trabalha muito bem, em especial, a comunicação da marca. Admiro de verdade. Inclusive já postei aqui alguns dos vt’s de televisão que publicitam minha (ex?) rede preferida de supermercados em Portugal.

Hoje deparei-me com uma anti-publicidade da marca. Ou melhor, uma “chacota” sobre os recentes acontecimentos que ligam as palavras Jerônimo Martins, Pingo Doce, Holanda, holding e impostos. Ah, já ia me esquecendo da principal (e preferida?): CRISE!

O engraçado do vídeo é que transmite uma mensagem em linguagem parecida com a que a marca costuma usar. Provavelmente, as fotos e trechos de vídeos foram retiradas de publicidades oficiais do Pingo Doce.

Vi ainda no site da SIC que o Pingo Doce distribuiu hoje a seus clientes um panfleto explicativo das “grandes inverdades” que estão circulando sobre a empresa. O interessante é que, logo no início do texto, o Pingo Doce justifica-se também em nome dos 25 mil funcionários que mantém, o que, ao meu ver, me soou como um aviso do tipo: “Vamos demitir essas pessoas se o faturamento diminuir, portanto, não nos boicotem”. (Porém, isso pode ser apenas uma mera “impressão desconfiada” da minha parte!).

Pena mesmo é que eu não tenho como conseguir um desses panfletos…

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Boicotar o Pingo Doce ou não? Eis a questão!

Na capa do site do Pingo Doce, a empresa exibe o seguinte comunicado:

Retirado do site http://www.pingodoce.pt na manhã de 7 de janeiro

Ontem mesmo, depois de postar sobre a emigração, troquei uma ideia com meu pai sobre o assunto. Concluímos que o seu Jerônimo é um português malandro. Para o dicionário Aulete, malandro “diz-se de pessoa que abusa da confiança dos outros e usa de esperteza para sobreviver”.

O Pingo Doce ainda pagará seus impostos a Portugal. Mas é óbvio que vai. Isso é inevitável, pois as lojas estão situadas no território nacional, emitem nota fiscal, etc e etc. O Pingo Doce vai continuar com a sede em Portugal. É de onde eles sempre tiraram o sustento e continuarão a tirar.

A grande sacada no “mexe” do capital para a Holanda está na possibilidade do confisco do dinheiro da empresa por parte do governo para pagar parte da dívida – a fim de conseguir mais dinheiro emprestado, por exemplo. Isso já aconteceu no Brasil. Confiscaram nossas poupanças na década de 90. Aliás, confiscaram as poupanças dos meus pais, pois eu nem era nascida. Por isso que o papo com o meu pai acabou por ser construtivo.

Ok. Essa é uma hipótese. Apenas isso.

Recebi ainda um e-mail de um ex-colega do curso de Geografia da FLUP, o Luís Pereira. Ele está sempre a enviar notícias sobre a crise, recortes de jornal, comentários sobre o que sai na mídia portguesa e etc. Atitude válida. Acredito que cada pequenas manifestação pode fazer alguma diferença.

Transcrevo, a seguir, partes do e-mail que recebi ontem (06/01):

“Tenho ouvido dizer maravilhas sobre a decisão da Sociedade do Santos, ou lá quem é, de se mudar para a Holanda: que é uma “holding” (acho piada a estes termos, parece que é para põr o “Zé” no seu devido lugar e mostrar quão inacessíveis e inteligentes são estas coisas), que na Holanda é mais seguro o seu investimento, que vai continuar a pagar impostos em Portugal, blá, blá, blá…

Balelas, é o que é. Acontece que o “Zé” não é burro e pergunta-se a si próprio: ‘quer dizer, enquanto a coisa dava, estava tudo contentinho por aqui, ninguém piava (nem os cronistas de serviço), lucrando, lucrando, cada vez mais, fazendo anúncios muito bonitinhos a elogiar a produção nacional. Agora, que o barco começa a meter água, toca a abandonar o navio’. Já se sabe: os ratos, são sempre os primeiros.

Eu vou boicotar o Pingo Doce, não alimento parasitas, espero que façam o mesmo.”

Admito que eu não sei ao certo se boicotaria o Pingo Doce ou não. Na verdade, por estar distante, talvez não consiga avaliar a situação da maneira correta.

Quero ainda deixar aqui registrado que nada saiu na mídia brasileira sobre isso. Ninguém sabe que o segundo homem mais rico de Portugal “migrou” as participações de sua empresa para a holding holandesa enquanto o país se afunda numa crise – provavelmente essa notícia daria “mais pano pra manga” na mídia daqui ao falar da crise europeia!

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A moda agora é emigrar

Há algumas semanas escuto o retumbar em looping de comentários sobre a afirmação do primeiro-ministro português, que estaria a “incentivar” a emigração dos jovens portugueses – especialmente os professores. Como em Portugal não há vagas para os jovens graduados e especializados (que falam diversas línguas, são viajantes e também integram a chamada Geração Y), o governo está incentivando a busca por vagas em outros países da Europa. Só há um problema nisso: me parece que os jovens portugueses têm pouca ou quase nula experiência de trabalho em suas áreas de formação. Nesse ponto, não discuto a responsabilidade dessa falha, mas sim sua consequência.

Um amigo meu (na verdade, um dos melhores amigos do meu namorado, que “por tabela” passei a chamar de amigo) está nessa situação. Namora uma brasileira há anos, e a menina vive cá. Agora que acabou o mestrado em algum curso de Engenharia na FEUP, passou a buscar uma vaga no mercado de trabalho brasileiro. Mais especificamente no Nordeste do Brasil. Disseram a ele que não tem experiência suficiente – aqui até acho que os possíveis empregadores foram bacanas com o menino, pois ele possui ZERO de experiência. O pior é que, provavelmente, não é o único.

Os graduandos portugueses não estagiam durante a faculdade. Isso é absurdo na realidade brasileira, por exemplo. Perguntei uma vez a alguns colegas do curso de Geografia da FLUP o porquê disso. Uns disseram que não há estágios, enquanto outros alegaram que o curso toma-lhes muito tempo. Para mim, isso é um absurdo! Aqui no Brasil (desculpem-me aqui aqueles que não gostam que eu comparece Portugal à colônia), estudantes de Engenharia Mecatrônica, de Artes Cênicas e Jornalismo fazem estágio durante a faculdade. Estágio remunerado, muitas vezes, mas em outras não. Essa é a nossa praxe.

De nada adianta o exterior parecer promissor ao jovem português. Nada lhes garante o sucesso fora de Portugal. E nem é necessário cruzar o oceano Atlântico. Acho difícil para os recém-graduados portugueses arranjarem trabalho fora de seu território. Afinal, onde tentariam a sorte? Na França, que tem fama de ser preconceituosa com imigrantes portugueses? Na Inglaterra, que está entopida de estrangeiros trabalhadores? Nem pensar na vizinha Espanha por razões óbvias. Descarto ainda possibilidades na Irlanda (um amigo português esteve lá no final de 2011 e não conseguiu vaga nem no Mc Donalds!). Itália e Grécia estão também mal das pernas. O leste europeu não vale a pena arriscar. Índia e China pagam mal. Nos Estados Unidos também há crise. Na Austrália, problemas para conseguir visto. Sobraria a Alemanha de Merkel, que é a única nação europeia que parece crescer em meio às turbulências. Mas daí vem a questão inevitável: será que os jovens portugueses sabem falar alemão?

De fato, a melhor alternativa seriam mesmo as ex-colônias. Conhecimentos sobre Angola e Moçambique não tenho muitos, Possuo uma amiga que mora em Moçambique e trabalha numa agência de publicidade, ou seja, sei que algum mercado por lá existe. Sei também que Angola é uma país caríssimo, que remunera bem gente especializada, mas possui uma classe trabalhadora paupérrima.

Por enquanto, quem decidiu “emigrar” foi o Pingo Doce. Jerônimo Martins – “the big boss” – vendeu a participação da sociedade para uma subsidiária na Holanda. Vendeu também os direitos de voto. No outro país, a empresa poderá contar com financiamentos, menores impostos e alguma isenção. Uma falha no modelo União Europeia: os países-membros não deveriam ter impostos diferenciados, incentivos fiscais ou coisas do gênero. Se a moeda é padrão, isso também deveria ser, não?

A manobra de JM vista do viés empresarial parece-me justa. Portugal está em crise, e é melhor tirar o barco do mar antes que a tempestade aumente. Por outro lado, posso compreender também que Jerônimo Martins está a trair o país: “os ratos são os primeiros a abandonar o barco que naufraga”.

E parece-me que a maioria dos portugueses compreendeu a atitude dessa maneira. Tanto que após o anúncio foram criadas diversas comunidades nas redes sociais pedindo o boicote ao supermercado: Boicote ao Pingo Doce e Salário Mínimo Holandês para os Trabalhadores do Pingo Doce (que é de €1,398.60 por mês – pelo menos 2,5 vezes maior que o português!) são as mais populares. Há ainda a comunidade Boicote a quem faz Boicote ao Pingo Doce, na qual o criador alega que “não tem a mínima relação direta ou indireta com Jerônimo Martins”.

Em breve, mais um produto da marca Pingo Doce disponível nas lojas da rede

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Réveillon no Porto

No Brasil todos querem ir ao Rio de Janeiro no Ano Novo ver os fogos de artifício pelo menos uma vez na vida. A Rede Globo faz a contagem dos minutos do novo ano todos os anos e transmite ao vivo as imagens da praia de Copacabana. Creio que a minha família não é a única que acompanha a contagem regressiva pela tv.

Os fogos do Rio duram 16 minutos. Sempre ouvi falar que era um dos maiores em duração. Confesso que sempre desconfiei desse dado, especialmente após presenciar os fogos no São João do Porto.

Através de uma rápida pesquisada na Internet, encontrei um vídeo da queima de fogos realizada ontem no Porto. Foram 15 minutos. Com certeza, em Sidney, Paris e Nova York devem haver espetáculos similares ou até maiores.

Alegar que os fogos de artifício da virada de ano no Rio são maiores do mundo não seria o mesmo que chamar os brasileiros de inventores do carnaval?

#ficadúvida

Enfim, um Feliz Ano Novo aos meus leitores fiéis e aos visitantes anônimos. Que 2012 seja o melhor ano de nossas vidas 🙂

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