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70 dias de Alemanha

Estou há tempos sem passar por aqui, mas de vez em quando é bom vir tirar o pó que se acumula, limpar os fenos e ver se a casa está em ordem. E, dessa vez, trago boas novas! Não, não voltarei a viver a Vida Portuguesa, no entanto, vou participar de um programa alemão para jornalistas e viver cerca de 70 dias em Berlin. Para isso, criei um novo blog (e espero que quem gosta de me ler, dê uma passadinha por lá!). De qualquer forma, nos primeiros três dias de viagem, vou dar uma passadinha em Portugal. E, é óbvio, vou para o Porto rever minha terrinha do coração.

O endereço do blog 70 dias de Alemanha é: www.70diasdealemanha.wordpress.com

Espero encontrá-los por lá 🙂

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Filed under Europa, Mundo

A crise da Europa no jornal brasuca – parte I

Um dos jornais da minha cidade está publicando essa semana uma série de reportagens sobre a crise na Europa. A primeira matéria saiu ontem, domingo, e era sobre a Grécia. Hoje, segunda, foi a vez de Portugal. Na sequência, Itália, Irlanda e Espanha.

Pretendo fazer comentários sobre os artigos publicados no final dessa semana. Por enquanto, apenas colo a íntegra dos textos e a imagem da página de onde saíram. Inicio por Portugal, pois é o que cerneia o presente blog 🙂

Portugal, o P de PIIGS

EUROPA SOB MAU TEMPO:

ARROCHO NA MESA DO RESTAURANTE

No segundo dia da série sobre a crise na Europa, como o aumento de impostos gera desafios aos comerciantes de Portugal

A secular Madragoa, bem próxima ao rio Tejo e à zona portuária de Alcântara, já resistiu ao Grande Terremoto de 1755, ao rearranjo político-econômico do regime salazarista e à tão aguardada entrada na União Europeia (UE). Costuma-se dizer pelas ruelas desse bairro que “quem por cá vive, gente forte é”. Mas o que essa gente empreendedora não esperava é que, num piscar de olhos, um empréstimo internacional de 78 bilhões de euros mudasse tudo.

A crise vivida pela zona do euro vem impondo um novo modo de vida aos lusitanos. Somada à política intervencionista da troika (composta por UE, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu), alterou hábitos de consumo, elevou o índice de desemprego e diminuiu a competitividade do país no mercado externo.

Na ruelas da Madragoa, nem todos conseguiram se reinventar. Na pequena travessa do Pasteleiro, em dois meses a vizinhança viu dois tradicionais estabelecimentos fecharem: um salão de cabeleireiro e uma galeria de arte que empregava uma dezena de profissionais.

O que se diz na travessa, um discurso que ecoa por toda a cidade, é que “não há maneira de sustentar tantos impostos”. Traduzindo em números, significa dizer que, para o governo do primeiro-ministro Passos Coelho cumprir as metas determinadas pela troika, os donos de restaurantes, por exemplo, pagarão 10% a mais de Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA). E há mais: 23% de aumento nas tarifas de energia elétrica e gás, 3,19% nos aluguéis, 13% na tarifa da água, 4,36% nos pedágios.

30% dos jovens sem trabalho

O reflexo da austeridade é sentido por vários segmentos. Como muitos em Lisboa, o comerciante José Martins Sousa, 64 anos, à frente de um pequeno restaurante na Madragoa há três décadas, refez toda a logística do local para reduzir o impacto dos aumentos de tributos.

“Não alterarei os valores do cardápio. Mas me vi obrigado a dispensar meus três funcionários e manter o ritmo da casa apenas comigo e minha esposa”, conta Martins, que não sabe até quando manterá as portas abertas.

Um dos primeiros a integrar a Passeata dos Indignados e Precários, no dia 21 de janeiro, o aposentado Fernando Augusto, 64 anos, confirma um cenário cada vez mais recorrente: de pais que mantêm os filhos desempregados. Mesmo com o corte mensal de 300 euros na aposentadoria, Augusto arca com todo o orçamento doméstico e sustenta os dois filhos recém-formados.

“Que perspectiva tem um pai de família ao ver os filhos formados e desempregados há meses?”, desabafa o aposentado.

Mais de 30% dos jovens estão sem trabalho no país. De acordo com os últimos dados da Eurostat e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), há mais de 600 mil desempregados inscritos nos centros de emprego em Portugal.

Mas é no meio da crise que se vê emergir uma nova linguagem de emancipação. Na gramática da indignação, repercutida da Madragoa até Benfica e passando pelo Chiado, há uma população disposta a transformar a política unilateral do país. E, como nem todo fado canta a desilusão, o português sabe muito bem o que significa transformação.

Crédito: Juliana Souza (Jornalista, Juliana Souza vive em Lisboa desde 2008 e escreve para jornais e agências em Portugal e no Brasil. Atualmente, cursa doutorado em linguagens e heterodoxias na Universidade de Coimbra.

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Ai se eu te pego na Europa

A reportagem de abertura do Fantástico deste domingo, 15 de Janeiro, foi o sucesso de Michel Teló na Europa. Ele foi a Península Ibérica para duas apresentações em Portugal e quatro na Espanha, além de inúmeras entrevistas e participações em programas de tv.

O Fantástico aproveitou para proporcionar o encontro de Teló com Cristiano Ronaldo, que, segundo o que dizem, foi responsável pelo sucesso de “Ai se eu te pego” do outro lado do Atlântico, depois de comemorar um gol do Real Madrid com a dancinha já famosa cá.

A primeira vez que eu ouvi falar de Michel Teló foi na Europa. Fui a festa de despedida de um amigo brasileiro que estava retornando ao Brasil. Ele me mostrou “Fugidinha”. Outro amigo, que é do Mato Grosso do Sul, disse que conhecia o Michel Teló. Parece que um amigo dele era primo do Teló ou algo assim, e eles se conheciam pessoalmente. Claro, na época, Michel Teló não devia nem sonhar que um dia faria sucesso na Europa, conheceria o Cristiano Ronaldo e que um monte de gente que não fala a língua dele cantaria sua música.

Aqui no Brasil há muitas pessoas criticando o sucesso de Michel Teló. Dizem que ouvir e gostar de “Ai se eu te pego” é falta de cultura, coisa de gente de baixo nível. Há, inclusive, cantores e pessoas da mídia falando mal dele. Eu acho isso um absurdo!

Aprendi na Faculdade, em uma aula de Psicologia, que uma pessoa pode ser vista de três formas distintas: 1) como a pessoa se vê; 2) como os outros veem a pessoa; 3) como a pessoa pensa que os outros a veem. E daí, fico a pensar: o Brasil não é uma pessoa, ok. Mas é uma Nação, formatada por diversas identidades, que correspondem também a uma identidade única, pois senão não teria estabelecido seus limites geográficos assim. Ou seja, dá para aplicar essa teoria ao país.

Como o Brasil se vê? O Brasil é o país da esperança para alguns, e das oportunidades para outros. É um país formatado por uma massa sem cultura, e uma elite que administra dinheiro e poder. Mas a elite também pode ser vista como burra, formada por filhinhos de papai que não se prestam a ler um livro. O Brasil é o país das cotas raciais para ingresso na Universidade, pois tivemos escravos até quase o início do século XX. O Brasil é o país do carnaval, das mulheres bonitas, dos bons jogadores de futebol que são exportados ainda moleques. Mas o Brasil também é o país da má alimentação, da subnutrição, do surto de câncer e dos astros do futebol que decidem ficar nos times de cá. Temos a Amazônia, as praias e outras belezas naturais. Mas também temos cidades lotadas, caras, sem infraestruturas básicas ou transporte público. Pode ser o país da fome, da miséria e da injustiça social, ao mesmo tempo que, para alguns, é o lugar certo para gastar um salário mínimo numa noite de balada.

Como os outros veem o Brasil? Há provavelmente os que ligam Brasil a diversão (carnaval, futebol, festa, verão, cerveja, mulher bonita), enquanto outros o remetem a pobreza (favelas, crianças famintas, seca no Nordeste, corrupção social, tráfico de drogas, guerra civil). Deve existir os que somam os dois fatores (um país de gente alegre, mas pobre; um país bonito, mas perigoso). Ainda posso citar gente que acha o Brasil caro, que nunca viveria aqui ou que sonha em passar o resto dos seus dias cá. Do mesmo jeito, há os que acham o Brasil ridiculamente barato e, talvez, o país das oportunidades no momento atual.

Fiquei matutando sobre esse assunto um bocado. Concluí que a maioria das pessoas deve ver o país de uma forma bem particular, afinal somos extremamente plurais aqui. Para escrever sobre como os outros nos veem, tentei lembrar de comentários que ouvi de estrangeiros sobre o país. Impossível não cair em alguns clichês.

Agora, talvez o mais difícil pareça imaginar como o Brasil pensa que os outros o veem. Na minha opinião, é a parte mais fácil. Como o Brasil pensa que os outros o veem? Praia, samba e futebol. E, agora, ainda há o temor de que associem nosso país ao “Ai se eu te pego” de Teló. Mas por que o medo? Se temos mesmo milhares de pessoas dançando, cantando e indo aos shows dele? Não é o gosto por uma música ou o hábito de assistir determinados programas de tv que define se a pessoa é culta ou não.

Detalhe que Michel Teló já gravou “Ai se eu te pego” em inglês. A ideia é “atacar” agora os país de língua não latina 😛

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Filed under Brasil, Espanha, Europa, Portugal

Portugal no vestibular da UFRGS 2012

Ocorreu na última semana o vestibular 2012 da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a melhor e maior universidade do meu Estado (eu iniciei meus estudos de Geografia lá e pretendo acabá-los se tiver forças…). Apesar de não estar frequentando o curso nos últimos tempos (acabei me formando geógrafa pela Universidade do Porto, apesar de ainda ter a vaga garantida na UFRGS), me candidatei a fiscal do vestibular e fui sorteada. Foram quatro dias de prova, e, pela primeira vez, vi Portugal aparecer nas questões;

Eu tentei o vestibular da UFRGS duas vezes. Fui aprovada na segunda, em 2006. Posso dizer que conheço a maioria das provas do vestibular, pois estudei pelas antigas questões para ingressar na Universidade. Nunca vi qualquer coisa sobre Portugal nas provas.

Aliás, nunca se falou tanto de Portugal e dos irmãos de língua portuguesa no Brasil. Aliás, acredito que a maioria das pessoas por aqui nem sabe que falam protuguês na África, e devem achar esquisita a ideia de existirem pessoas que nasceram falando português na Europa;

Havia uma questão sobre a Revolução dos Cravos na prova de História e alguma pequenina menção à crise europeia (citando a Espanha também, pelo que me recordo).

O pessoal sempre tenta adivinhar o que será o tema de redação. Esse ano, não lembro de ter visto alguém acertar. Na prova, era pedida uma dissertação sobre “a última flor do Lácio”. Havia, inclusive, um textinho estraído do Observatório da Língua Portuguesa, site vinculado a Sapo. Além disso, um gráfico ilustrava os locais onde a língua é falada no mundo – garanto que alguns dos vestibulandos deve ter descoberto que se fala português em São Tomé e Princípe na hora da prova (aliás, e maioria deve continuar sem saber onde fica isso!);

Redação do vestibular da UFRGS 2012: tema era o crescimento da importância da língua portuguesa

Durante o vestibular que conheci Marcelo. Ele foi coordenador do local de prova onde eu trabalhei e é professor na Faculdade de Educação Física da UFRGS. Cursou o Doutorado na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto entre 2003 e 2006, ou seja, tivemos muito assunto durante os quatro dias de vestibular;

O mais interessante é que notei mais uma vez como as pessoas têm lembranças carinhosas da cidade do Porto, e todos que viveram no velho continente acabam por concordar que a qualidade de vida europeia é algo que não se alcança no Brasil – não importa a quantidade de dinheiro que você tenha! Marcelo só não se dava muito bem com os portugueses, em especial “com os vizinhos velhos chatos que chamavam a polícia quando fazia uma festinha no apartamento”.

Marcelo viveu em Matosinhos por três anos com a mulher. Sua primeira filha (hoje com quase 7 anos) nasceu em Portugal. A esposa trabalhava num ginásio em Matosinhos, enquanto ele escrevia a tese;

Ele contou-me uma história curiosa sobre a Queima das Fitas. Talvez eu nunca tenha me dado conta disso por, digamos, ingenuidade (?!), ou apenas não tenha me atentado a esses detalhes: Marcelo disse que viu durante a Queima várias meninas com as chamadas “pílulas do dia seguinte” na bolsa para tomarem caso fizessem alguma coisa com alguém ou alguéns (e esquecem da proteção por causa da quantidade de álcool ingerida).

Eu já sabia que as portuguesas eram mais libertinas que as brasileiras (muito embora a maioria pensem que o oposto é verdadeiro). Confesso que fiquei um pouco assustada ao cogitar essa história como verdade. No entanto, sei de histórias “piores” do que essa que comprovam a tese que o pessoal europeu é sim mais libertino que os povinho da “terra do carnaval”;

E para aqueles que não sabem, a Queima das Fitas é uma grande festa universitária que ocorre durante 8 dias em algumas cidades de Portugal. As mais famosas são a do Porto e a de Coimbra. Os finalistas (graduandos do último ano de curso) desfilam pela cidade, participam de diversos eventos e bebem MUITO. No Porto, a noite, todos se dirigem ao Parque da Cidade para assistir a concertos de música e virar shots nas diversas barraquinhas ali montadas. Eu participei por 2 anos, sempre trabalhando. O ingresso da semana custa cerca de 50 euros.

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Boicotar o Pingo Doce ou não? Eis a questão!

Na capa do site do Pingo Doce, a empresa exibe o seguinte comunicado:

Retirado do site http://www.pingodoce.pt na manhã de 7 de janeiro

Ontem mesmo, depois de postar sobre a emigração, troquei uma ideia com meu pai sobre o assunto. Concluímos que o seu Jerônimo é um português malandro. Para o dicionário Aulete, malandro “diz-se de pessoa que abusa da confiança dos outros e usa de esperteza para sobreviver”.

O Pingo Doce ainda pagará seus impostos a Portugal. Mas é óbvio que vai. Isso é inevitável, pois as lojas estão situadas no território nacional, emitem nota fiscal, etc e etc. O Pingo Doce vai continuar com a sede em Portugal. É de onde eles sempre tiraram o sustento e continuarão a tirar.

A grande sacada no “mexe” do capital para a Holanda está na possibilidade do confisco do dinheiro da empresa por parte do governo para pagar parte da dívida – a fim de conseguir mais dinheiro emprestado, por exemplo. Isso já aconteceu no Brasil. Confiscaram nossas poupanças na década de 90. Aliás, confiscaram as poupanças dos meus pais, pois eu nem era nascida. Por isso que o papo com o meu pai acabou por ser construtivo.

Ok. Essa é uma hipótese. Apenas isso.

Recebi ainda um e-mail de um ex-colega do curso de Geografia da FLUP, o Luís Pereira. Ele está sempre a enviar notícias sobre a crise, recortes de jornal, comentários sobre o que sai na mídia portguesa e etc. Atitude válida. Acredito que cada pequenas manifestação pode fazer alguma diferença.

Transcrevo, a seguir, partes do e-mail que recebi ontem (06/01):

“Tenho ouvido dizer maravilhas sobre a decisão da Sociedade do Santos, ou lá quem é, de se mudar para a Holanda: que é uma “holding” (acho piada a estes termos, parece que é para põr o “Zé” no seu devido lugar e mostrar quão inacessíveis e inteligentes são estas coisas), que na Holanda é mais seguro o seu investimento, que vai continuar a pagar impostos em Portugal, blá, blá, blá…

Balelas, é o que é. Acontece que o “Zé” não é burro e pergunta-se a si próprio: ‘quer dizer, enquanto a coisa dava, estava tudo contentinho por aqui, ninguém piava (nem os cronistas de serviço), lucrando, lucrando, cada vez mais, fazendo anúncios muito bonitinhos a elogiar a produção nacional. Agora, que o barco começa a meter água, toca a abandonar o navio’. Já se sabe: os ratos, são sempre os primeiros.

Eu vou boicotar o Pingo Doce, não alimento parasitas, espero que façam o mesmo.”

Admito que eu não sei ao certo se boicotaria o Pingo Doce ou não. Na verdade, por estar distante, talvez não consiga avaliar a situação da maneira correta.

Quero ainda deixar aqui registrado que nada saiu na mídia brasileira sobre isso. Ninguém sabe que o segundo homem mais rico de Portugal “migrou” as participações de sua empresa para a holding holandesa enquanto o país se afunda numa crise – provavelmente essa notícia daria “mais pano pra manga” na mídia daqui ao falar da crise europeia!

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A moda agora é emigrar

Há algumas semanas escuto o retumbar em looping de comentários sobre a afirmação do primeiro-ministro português, que estaria a “incentivar” a emigração dos jovens portugueses – especialmente os professores. Como em Portugal não há vagas para os jovens graduados e especializados (que falam diversas línguas, são viajantes e também integram a chamada Geração Y), o governo está incentivando a busca por vagas em outros países da Europa. Só há um problema nisso: me parece que os jovens portugueses têm pouca ou quase nula experiência de trabalho em suas áreas de formação. Nesse ponto, não discuto a responsabilidade dessa falha, mas sim sua consequência.

Um amigo meu (na verdade, um dos melhores amigos do meu namorado, que “por tabela” passei a chamar de amigo) está nessa situação. Namora uma brasileira há anos, e a menina vive cá. Agora que acabou o mestrado em algum curso de Engenharia na FEUP, passou a buscar uma vaga no mercado de trabalho brasileiro. Mais especificamente no Nordeste do Brasil. Disseram a ele que não tem experiência suficiente – aqui até acho que os possíveis empregadores foram bacanas com o menino, pois ele possui ZERO de experiência. O pior é que, provavelmente, não é o único.

Os graduandos portugueses não estagiam durante a faculdade. Isso é absurdo na realidade brasileira, por exemplo. Perguntei uma vez a alguns colegas do curso de Geografia da FLUP o porquê disso. Uns disseram que não há estágios, enquanto outros alegaram que o curso toma-lhes muito tempo. Para mim, isso é um absurdo! Aqui no Brasil (desculpem-me aqui aqueles que não gostam que eu comparece Portugal à colônia), estudantes de Engenharia Mecatrônica, de Artes Cênicas e Jornalismo fazem estágio durante a faculdade. Estágio remunerado, muitas vezes, mas em outras não. Essa é a nossa praxe.

De nada adianta o exterior parecer promissor ao jovem português. Nada lhes garante o sucesso fora de Portugal. E nem é necessário cruzar o oceano Atlântico. Acho difícil para os recém-graduados portugueses arranjarem trabalho fora de seu território. Afinal, onde tentariam a sorte? Na França, que tem fama de ser preconceituosa com imigrantes portugueses? Na Inglaterra, que está entopida de estrangeiros trabalhadores? Nem pensar na vizinha Espanha por razões óbvias. Descarto ainda possibilidades na Irlanda (um amigo português esteve lá no final de 2011 e não conseguiu vaga nem no Mc Donalds!). Itália e Grécia estão também mal das pernas. O leste europeu não vale a pena arriscar. Índia e China pagam mal. Nos Estados Unidos também há crise. Na Austrália, problemas para conseguir visto. Sobraria a Alemanha de Merkel, que é a única nação europeia que parece crescer em meio às turbulências. Mas daí vem a questão inevitável: será que os jovens portugueses sabem falar alemão?

De fato, a melhor alternativa seriam mesmo as ex-colônias. Conhecimentos sobre Angola e Moçambique não tenho muitos, Possuo uma amiga que mora em Moçambique e trabalha numa agência de publicidade, ou seja, sei que algum mercado por lá existe. Sei também que Angola é uma país caríssimo, que remunera bem gente especializada, mas possui uma classe trabalhadora paupérrima.

Por enquanto, quem decidiu “emigrar” foi o Pingo Doce. Jerônimo Martins – “the big boss” – vendeu a participação da sociedade para uma subsidiária na Holanda. Vendeu também os direitos de voto. No outro país, a empresa poderá contar com financiamentos, menores impostos e alguma isenção. Uma falha no modelo União Europeia: os países-membros não deveriam ter impostos diferenciados, incentivos fiscais ou coisas do gênero. Se a moeda é padrão, isso também deveria ser, não?

A manobra de JM vista do viés empresarial parece-me justa. Portugal está em crise, e é melhor tirar o barco do mar antes que a tempestade aumente. Por outro lado, posso compreender também que Jerônimo Martins está a trair o país: “os ratos são os primeiros a abandonar o barco que naufraga”.

E parece-me que a maioria dos portugueses compreendeu a atitude dessa maneira. Tanto que após o anúncio foram criadas diversas comunidades nas redes sociais pedindo o boicote ao supermercado: Boicote ao Pingo Doce e Salário Mínimo Holandês para os Trabalhadores do Pingo Doce (que é de €1,398.60 por mês – pelo menos 2,5 vezes maior que o português!) são as mais populares. Há ainda a comunidade Boicote a quem faz Boicote ao Pingo Doce, na qual o criador alega que “não tem a mínima relação direta ou indireta com Jerônimo Martins”.

Em breve, mais um produto da marca Pingo Doce disponível nas lojas da rede

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Ronaldo, paga a crise!

Cristiano Ronaldo ganha pelo menos 22,5 milhões de euro por ano, somados o salário no Real Madrid e seus patrocínios principais (Nike, Coca-Cola e Giogio Armani). É um dos jogadores de futebol mais bem pagos de todos os tempos. Fora a “remuneração fixa”, CR ainda estrela algumas outras campanhas publicitárias, de bancos a marcas de cosméticos, engordando o bolso com mais algumas moedinhas. Ouvi ainda dizer que ele é dono de algumas coisinhas na ilha da Madeira, sua terra natal.

Apesar disso, creio que ele não conseguiria pagar a dívida portuguesa, como sugerem os Homens da Luta no vídeo O Ronaldo paga a crise.

Segundo o que pesquisei na Internet, a dívida portuguesa não surgiu de repente. Ela é fruto de uma evolução, ou seja, os governantes deveriam ter se tocado antes que o balão ia estourar algum dia…

– Em 1980 a dívida pública era de 2,3 mil milhões de euros.

– Em 2000 já era de 66,1 mil milhões.

– Em 2004 era de 79 mil milhões.

– Em 2011 é de 150 mil milhões.

“Mil milhões” em português de Portugal é o equivalente a “bilhão” em brasileiro. Ou seja, Portugal encerra o ano de 2011 devendo mais de 150 bilhões de euros – e o PIB português é de 160 bilhões! Isso sem falar na dívida dos bancos e das empresas privadas…

Na lista das resoluções para 2012, Portugal deveria traçar um plano para sair da bancarrota. Apelar para a fortuna de Cristiano Ronaldo é até engraçado, mas, pensando bem, está longe de ser a solução da crise.

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