Um dos jornais da minha cidade está publicando essa semana uma série de reportagens sobre a crise na Europa. A primeira matéria saiu ontem, domingo, e era sobre a Grécia. Hoje, segunda, foi a vez de Portugal. Na sequência, Itália, Irlanda e Espanha.
Pretendo fazer comentários sobre os artigos publicados no final dessa semana. Por enquanto, apenas colo a íntegra dos textos e a imagem da página de onde saíram. Inicio por Portugal, pois é o que cerneia o presente blog 🙂
EUROPA SOB MAU TEMPO:
ARROCHO NA MESA DO RESTAURANTE
No segundo dia da série sobre a crise na Europa, como o aumento de impostos gera desafios aos comerciantes de Portugal
A secular Madragoa, bem próxima ao rio Tejo e à zona portuária de Alcântara, já resistiu ao Grande Terremoto de 1755, ao rearranjo político-econômico do regime salazarista e à tão aguardada entrada na União Europeia (UE). Costuma-se dizer pelas ruelas desse bairro que “quem por cá vive, gente forte é”. Mas o que essa gente empreendedora não esperava é que, num piscar de olhos, um empréstimo internacional de 78 bilhões de euros mudasse tudo.
A crise vivida pela zona do euro vem impondo um novo modo de vida aos lusitanos. Somada à política intervencionista da troika (composta por UE, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu), alterou hábitos de consumo, elevou o índice de desemprego e diminuiu a competitividade do país no mercado externo.
Na ruelas da Madragoa, nem todos conseguiram se reinventar. Na pequena travessa do Pasteleiro, em dois meses a vizinhança viu dois tradicionais estabelecimentos fecharem: um salão de cabeleireiro e uma galeria de arte que empregava uma dezena de profissionais.
O que se diz na travessa, um discurso que ecoa por toda a cidade, é que “não há maneira de sustentar tantos impostos”. Traduzindo em números, significa dizer que, para o governo do primeiro-ministro Passos Coelho cumprir as metas determinadas pela troika, os donos de restaurantes, por exemplo, pagarão 10% a mais de Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA). E há mais: 23% de aumento nas tarifas de energia elétrica e gás, 3,19% nos aluguéis, 13% na tarifa da água, 4,36% nos pedágios.
30% dos jovens sem trabalho
O reflexo da austeridade é sentido por vários segmentos. Como muitos em Lisboa, o comerciante José Martins Sousa, 64 anos, à frente de um pequeno restaurante na Madragoa há três décadas, refez toda a logística do local para reduzir o impacto dos aumentos de tributos.
“Não alterarei os valores do cardápio. Mas me vi obrigado a dispensar meus três funcionários e manter o ritmo da casa apenas comigo e minha esposa”, conta Martins, que não sabe até quando manterá as portas abertas.
Um dos primeiros a integrar a Passeata dos Indignados e Precários, no dia 21 de janeiro, o aposentado Fernando Augusto, 64 anos, confirma um cenário cada vez mais recorrente: de pais que mantêm os filhos desempregados. Mesmo com o corte mensal de 300 euros na aposentadoria, Augusto arca com todo o orçamento doméstico e sustenta os dois filhos recém-formados.
“Que perspectiva tem um pai de família ao ver os filhos formados e desempregados há meses?”, desabafa o aposentado.
Mais de 30% dos jovens estão sem trabalho no país. De acordo com os últimos dados da Eurostat e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), há mais de 600 mil desempregados inscritos nos centros de emprego em Portugal.
Mas é no meio da crise que se vê emergir uma nova linguagem de emancipação. Na gramática da indignação, repercutida da Madragoa até Benfica e passando pelo Chiado, há uma população disposta a transformar a política unilateral do país. E, como nem todo fado canta a desilusão, o português sabe muito bem o que significa transformação.
Crédito: Juliana Souza (Jornalista, Juliana Souza vive em Lisboa desde 2008 e escreve para jornais e agências em Portugal e no Brasil. Atualmente, cursa doutorado em linguagens e heterodoxias na Universidade de Coimbra.




Tens noção que PIIGS é um termo altamente prejurativo, e inventado pela imprensa económica especulativa?
Já agora porque não o GIPSI? Esse atira logo directamente para a xenofobia, sem merdas ou rodeios.
Quando é para se ofender, que seja logo à séria. Verdade?
‘pejorativo’, my bad
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