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A crise da Europa no jornal brasuca – parte V

Confesso que demorei a postar sobre a Grécia. Falha minha. Mas como não sou fã de promessas que não garanto 100% que irei cumprir, não vou dizer que essa será a última vez que isso acontece. No entanto, pretendo me esforçar.

Posto hoje, finalmente, a primeira matéria da série de reportagens sobre a crise europeia. A Grécia foi a primeira a ser abordada, até porque, foi quando a crise chegou ao país da Acrópole que o assunto correu o mundo. Até porque, se não estou enganada, a Irlanda já estava com problemas bem antes da Grécia. No entanto, foi no-país-do-idioma-esquisito que a coisa pegou fogo, virou manchete de jornal e repercute até hoje. A Grécia acabou por fim sendo o símbolo da crise na Europa.

A capa do caderno do jornal que publicou as reportagens da série "Europa sob mau tempo". A primeira data de domingo, 5 de fevereiro.

EUROPA SOB MAU TEMPO:

CALOTE NA ACRÓPOLE

As reportagens sobre a crise na Europa foram feitas por jornalistas que vivem nos países em situação mais dramática. Neste domingo, o retrato do cotidiano na Grécia, primeira nação a mostrar que a turbulência iniciada em 2008 nos Estados Unidos iria sacudir a zona do euro

Morar no país mais endividado e enfraquecido da União Europeia não é fácil. É preciso mudar hábitos, adaptar-se e ser otimista para sobreviver. As rigorosas medidas de austeridade impostas pelo governo da Grécia, como aumento de impostos, cortes de salários e demissão de milhares de funcionários públicos, obrigaram os gregos a mudar de estilo de vida.

Se o país de Platão e Aristóteles era conhecido como a região da Europa com as noites mais divertidas, na qual carros de luxo, viagens e estilo de vida caríssimo faziam parte do cotidiano, a situação atual é bem diferente. Porsches Cayenne, que eram mais vendidos na cidade grega de Larissa do que em Londres, estão sendo trocados por automóveis populares. Lojas de marca fecham as portas. Viagens internacionais são trocadas por nacionais, e a diversão em bares, restaurantes e boates migrou às casas de amigos.

A Grécia de 2012 é muito diferente daquela da Olimpíada de 2004, quando os gregos gozavam de salários altos e taxas de desemprego baixas. Hoje, mendigos estão em cada esquina de Atenas. Assaltos são mais frequentes e hábitos simples como tomar café não são mais diários. O Instituto Grego de Estatística explica: com a crise econômica, centenas de negócios fecharam as portas, e o desemprego subiu para 18,2% em outubro.

“O impacto do desemprego é desesperador. Em um ano, aumentou 40% o número de passageiros que não pagam a passagem no metrô. A maioria é de pessoas entre 27 e 35 anos. Fico numa posição difícil, porque tenho de multá-los mesmo sabendo que a maioria é de desempregados e por isso não paga a passagem”, diz Giorgos Xenthanopolous, fiscal do metrô de Atenas.

Giorgos vê como única solução a instalação de barras eletrônicas no lugar das máquinas automáticas. Para a taxista Anastasia Karsanidou, o controle deverá ajudar a conter o calote nas catracas, mas vai prejudicar muita gente.

“Antigamente, táxi ou carro era o meio de transporte mais usado. Com a crise, transporte público é a única opção, alguns nem pagam a passagem por falta de dinheiro mesmo”, diz.

Anastasia também está preocupada com o futuro dos dois filhos e a profissão da família: “Haverá emprego? Voltaremos para o dracma (moeda grega antes do euro)? Meu marido é músico. Estamos em duas profissões de que os gregos se afastaram drasticamente: táxi e diversão.”

Leonidas Vasilopous é um dos universitários gregos que trocaram a diversão por encontros em casa de amigos. “Adoramos ir à taverna, bouzukia (clube grego), mas a crise não permite. Não há dinheiro nem para pagar as contas. Então, nos reunimos em casa. A maioria dos meus amigos está desempregada”, diz Leonidas enquanto entregava jornais, dizendo se considerar sortudo por ter um emprego.

Professores e advogados são os mais afetados

Entre dezenas de profissões, a crise também atingiu drasticamente professores e advogados. Com redução de salários em torno de 300 euros mensais (cerca de R$ 810), professores foram obrigados a se adaptar.

“Tive que mudar para um apartamento menor e cortar teatro e cinema para diminuir as contas mensais. Sempre comprei muitos livros, hoje não é possível”, conta o professor Vasileios Davas.

Davas diz que a crise faz as pessoas se sentirem mais ansiosas e depressivas. Para a advogada Paschalia Petridou, a Grécia passou a ser um país sem futuro.

“Com as novas medidas, não é mais necessário ter advogado para uma série de serviços, como o divórcio. Com isso, nosso trabalho diminuiu drasticamente. Porém, os impostos que pagamos como autônomos aumentaram. Além disso, empresas, como a que trabalho, atrasam meses o pagamento e, se não fosse a ajuda familiar, seria difícil manter o necessário. A situação é tão caótica que no supermercado estamos comprando somente o básico”, desabafa a advogada.

Paschalia ressalta que é difícil viver num país onde, se perder o emprego, não será possível procurar outro, porque não há vagas: “O jeito é ir embora para o exterior.”

Imigrantes também estão retornando aos seus países de origem. “Antes da crise, uma família grega me chamava duas vezes por semana para fazer faxina. Agora, os que não cortaram totalmente me chamam uma vez por mês. A maioria é de aposentados com problemas de saúde”, afirma a búlgara Violeta Cristouma, que mora na Grécia desde 1997.

Segundo Violeta, a maioria dos colegas da Bulgária, Albânia e Rússia perdeu o emprego e voltou para seus países de origem.

Nas principais cidades, lojas fecham as portas

Além de ter levado milhares de gregos a transferir as economias para bancos do exterior, a instabilidade na Grécia trouxe a dúvida sobre se é mais seguro manter o dinheiro em bancos do país ou deixá-lo em casa. “Prefiro guardar o pouco que tenho comigo. Tudo pode acontecer. Me lembra a época de guerra”, comenta a aposentada Ioanna, que prefere não revelar o sobrenome.

A crise não poupou a classe mais favorecida. Segundo Dimitris Liaos, dono de uma loja de equitação, no único hipódromo da Grécia havia, em 2010, 1,5 mil cavalos. Hoje, são 550. “Quem comprou cavalos por hobby não tem mais condição de mantê-los. Ou vendem ou dão de graça. A classe média tinha entrado para o hipismo, mas com a crise não conseguiu se manter”, relata Liaos.

Além disso, segundo o empresário, a Grécia perdeu a credibilidade no Exterior: “fazíamos importação com prazo para pagamento de dois meses, agora temos de pagar à vista. O pequeno e o médio empresário não têm como sobreviver sem crédito”, reclama.

Uma pesquisa da Confederação Nacional do Comércio Grego (Esee) mostrou que, nos últimos dois anos, 68 mil lojas foram fechadas nas principais cidades da Grécia. Espera-se que até o próximo mês mais 53 mil encerrem as atividades. Numa das principais ruas comerciais de Atenas, Stadiou, 32% das lojas cerraram as portas. Em Solonos, foram 40%. No bairro mais caro da capital grega, Kolonaki, das 300 lojas, 71 encerraram atividades no ano passado.

Crédito: Cláudia Machado (Jornalista e cientista política, Cláudia Machado, 33 anos, trabalha na área de jornalismo e redação para empresas de marketing em Atenas, na Grécia. Nascida em Petrópolis (RJ), mora no exterior há uma década.)

Grécia: sinônimo de crise e calote no mundo contemporâneo

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