Boicotar o Pingo Doce ou não? Eis a questão!

Na capa do site do Pingo Doce, a empresa exibe o seguinte comunicado:

Retirado do site http://www.pingodoce.pt na manhã de 7 de janeiro

Ontem mesmo, depois de postar sobre a emigração, troquei uma ideia com meu pai sobre o assunto. Concluímos que o seu Jerônimo é um português malandro. Para o dicionário Aulete, malandro “diz-se de pessoa que abusa da confiança dos outros e usa de esperteza para sobreviver”.

O Pingo Doce ainda pagará seus impostos a Portugal. Mas é óbvio que vai. Isso é inevitável, pois as lojas estão situadas no território nacional, emitem nota fiscal, etc e etc. O Pingo Doce vai continuar com a sede em Portugal. É de onde eles sempre tiraram o sustento e continuarão a tirar.

A grande sacada no “mexe” do capital para a Holanda está na possibilidade do confisco do dinheiro da empresa por parte do governo para pagar parte da dívida – a fim de conseguir mais dinheiro emprestado, por exemplo. Isso já aconteceu no Brasil. Confiscaram nossas poupanças na década de 90. Aliás, confiscaram as poupanças dos meus pais, pois eu nem era nascida. Por isso que o papo com o meu pai acabou por ser construtivo.

Ok. Essa é uma hipótese. Apenas isso.

Recebi ainda um e-mail de um ex-colega do curso de Geografia da FLUP, o Luís Pereira. Ele está sempre a enviar notícias sobre a crise, recortes de jornal, comentários sobre o que sai na mídia portguesa e etc. Atitude válida. Acredito que cada pequenas manifestação pode fazer alguma diferença.

Transcrevo, a seguir, partes do e-mail que recebi ontem (06/01):

“Tenho ouvido dizer maravilhas sobre a decisão da Sociedade do Santos, ou lá quem é, de se mudar para a Holanda: que é uma “holding” (acho piada a estes termos, parece que é para põr o “Zé” no seu devido lugar e mostrar quão inacessíveis e inteligentes são estas coisas), que na Holanda é mais seguro o seu investimento, que vai continuar a pagar impostos em Portugal, blá, blá, blá…

Balelas, é o que é. Acontece que o “Zé” não é burro e pergunta-se a si próprio: ‘quer dizer, enquanto a coisa dava, estava tudo contentinho por aqui, ninguém piava (nem os cronistas de serviço), lucrando, lucrando, cada vez mais, fazendo anúncios muito bonitinhos a elogiar a produção nacional. Agora, que o barco começa a meter água, toca a abandonar o navio’. Já se sabe: os ratos, são sempre os primeiros.

Eu vou boicotar o Pingo Doce, não alimento parasitas, espero que façam o mesmo.”

Admito que eu não sei ao certo se boicotaria o Pingo Doce ou não. Na verdade, por estar distante, talvez não consiga avaliar a situação da maneira correta.

Quero ainda deixar aqui registrado que nada saiu na mídia brasileira sobre isso. Ninguém sabe que o segundo homem mais rico de Portugal “migrou” as participações de sua empresa para a holding holandesa enquanto o país se afunda numa crise – provavelmente essa notícia daria “mais pano pra manga” na mídia daqui ao falar da crise europeia!

4 comentários

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4 responses to “Boicotar o Pingo Doce ou não? Eis a questão!

  1. Afonso

    Nunca as palavras de Karl Marx foram tão sábias: o capital não tem pátria.

  2. Manuel

    Catch-22 ou, em bom português, uma pescadinha de rabo na boca.

    Boicotar o Pingo Doce é também boicotar os funcionários, e um boicote em massa iria colocar em perigo muitos empregos. O grupo Jerónimo Martins emprega muita gente e obviamente os administradores seriam os últimos a sentir os efeitos deste boicote.
    Depois há a questão da proximidade: o comércio ‘tradicional’, ou as antigas mercearias, foram cilindradas e também já não correspondiam às exigências dos consumidores contemporâneos. Há alternativas, mas em muitos casos – devido à ampla disseminação dos PD – implicam deslocações mais longas, o recurso ao automóvel ou transporte público, produtos de qualidade inferior e preços mais altos!
    Ora, tudo somadinho, é um sapo difícil de engolir, mas ‘engolível’.
    Falando em sapo, o sr. Alexandre Soares dos Santos, raramente dá a cara, não é um rosto presente na comunicação social mas agora sentiu a necessidade de se ‘vir justificar’. Isto quer dizer que obviamente a imagem do grupo foi afectada.
    Mas o infeliz teve ainda por cima a lata de voltar-se contra Portugal ao afirmar que ‘o país não gosta de iniciativa privada’. Ou seja, que o país não gosta de gente como ele, ou como o grupo dele. E aqui se vê o estofo do qual este senhor é feito: ignora olimpicamente que a sua fortuna e o sucesso do grupo empresarial deve-se ao esforço dos milhares de funcionários portugueses e à confiança de milhões de consumidores portugueses…certamente para ele isto são meros detalhes.
    But karma is a bitch.

    Quanto à ‘mídia’ brasileira: estou viciado! Não só pelo estilo sintético e simplista, como repleto de meias-verdades ou então de não-verdades.
    Os correspondentes internacionais são tendenciosos, mal-informados e eu no mínimo, se pagasse uma avença a um destes senhores, exigia um texto com pelo menos o dobro dos caracteres e que atestassem a validade das fontes.
    Não acredito que a classe média brasileira que viaja, que estuda e que se possa afirmar minimamente esclarecida possa consumir certo tipo de produto jornalístico.
    Expliquem ao povo porque a 6ª potência mundial continua a não repartir a riqueza, o porquê da criminalidade continuar a aumentar, qual a razão que levou ao aumento astronómico de ‘habitações informais’, porque a inflação bate recordes mundiais, que o consumo baseado no acesso fácil ao crédito não poderão servir de base a um crescimento sustentável da economia a longo prazo…e que ser 6ª potência deveria acarretar responsabilidades de civismo e humanidade.

    Finalmente, a culpa da forma como o Brasil ‘fala’ de Portugal é também das comunidades lusófonas locais que simplesmente o permitem. Veja-se o exemplo da Irlanda, claramente apoiada pelos outros países anglo-saxónicos. Jamais um jornal americano escreveria uma matéria com o mesmo tom que a mídia brasileira aplica a Portugal, simplesmente porque os lobbies irlandeses nunca o permitiriam (não poderemos esquecer que a família ‘real’ americana é de origem irlandesa: os Kennedy).
    Este simples ‘apoio’ tem sido o suficiente para destacar a Irlanda dos restantes países em apuros…mesmo que os problemas sejam os mesmos ou piores que os dos outros.
    E no Brasil os Pereira, os Antunes, os Cantanhede ou os Silva?!

    Enfim…outro terrivelmente longo comentário. As minhas desculpas.

  3. A. Lemes

    Não vejo dessa forma onde “os ratos são os primeiros a abandonar o barco em naufrágio”. Acho até o contrário.
    Se na Holanda o Pingo Doce terá vantagens como impostos reduzidos, facilidade nos financiamentos e algumas isenções, qual o problema na migração? Aliás, esta manobra talvez seja até necessária para não acarretar na diminuição das filiais em Portugal e, principalmente, no fortalecimento da marca.

    Acredito que o maior culpado nisso foi o governo português, que ao observar essa tal migração, deveria ter oferecido as mesmas vantagens para o PD continuar investindo no país.
    Imagina a situação: você tem uma empresa com 10 funcionários. Um país chega e te oferece imposto reduzido para você poder contratar mais 10 funcionários. Já outro país diz que para manter os 10 funcionários você deverá pagar 20% a mais nos impostos. O que você faria?
    Acredito que para podermos opinar de forma justa, temos que nos colocar no lugar das duas partes e analisar de forma coerente.

    Aqui no Brasil o governo aumentou o imposto dos automóveis importados em 30% para estimular a venda dos automóveis das montadoras nacionais. Isso fez com que a Chery (montadora chinesa) reavaliasse a construção de sua fábrica aqui no país. Os chineses estão errados? Estariam a gerar milhares de empregos em um país onde o governo além de não ajudar, estaria a atrapalhar suas vendas? Se o Chery QQ é mais barato que o Uno, a Fiat que abaixe o preço. Além de aquecer o mercado, o consumidor seria beneficiado… Mas…aqui é Brasil né…consumidor sempre em último lugar…

    Ressalto que como estou fora, não sei sequer 5% destes acontecimentos. E talvez tenha sido muita pretensão opinar sobre isso.

  4. Manuel

    Este ‘incidente’ foi também aproveitado pela comunicação social, e sem ingenuidade pelo jornal Público, ou seja, grupo Sonae, ou seja a concorrência ‘Continente’.
    O governo deverá rever as incentivas à fixação de empresas e controlo da migração de capitais. O que não falta são empresas cotadas em bolsa com capitais em offshores e algumas delas com capital estatal.
    A Inditex (dona da Zara) durante muito tempo esteve registada na Irlanda: por óbvias razões fiscais. O ano passado anunciou que em 2012 iria passar a pagar todos os impostos em Espanha. Isto parece o oposto do PD, não parece?! No entanto, pensando que a Irlanda foi obrigada a ser ‘resgatada’ (e por isso oferece dúvidas aos mercados) é também uma jogada económica. O patriotismo parece ser cosmético.
    Tempo peculiar este, em que qualquer comum mortal fala de macroeconomia!

    E agora algo completamente diferente, e sobre o Porto: http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/1929/que-tal-viajar-de-metro-em-roupa-interior

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