A crise europeia: Grécia x Portugal

Vi isso circulando na Internet hoje, copiei e colei cá.

Grécia x Portugal

Sabe que eu penso justamente nisso o tempo todo?

Apesar de eu ter conhecido alguns gregos em minhas andanças por aí, nunca fui a Grécia e tampouco estudei qualquer coisa sobre a construção social-econômica-política do país. Não posso afirmar com certeza se eles são mais baderneiros ou têm um maior espírito de revolta do que outros povos afundados na crise econômica atual, mas talvez esses sejam os motivos que levam os gregos a sair às ruas “partir aquela merda toda” ao invés de se conformar com o fundo do poço.

Outra hipótese, é que os gregos sejam bem mais egoístas que os portugueses, por exemplo. Ao invés de abrirem mão do dinheiro próprio em nome do público, preferem “partir aquela merda toda” e lutar pelos seus direitos individuais. Se bem que também pode se tratar de uma atitude condizente com povo sofrido e que se fartou de passar necessidades, ou seja, vai “partir aquela merda toda” porque já não há outra hipótese.

Enfim, fato é que os portugueses parecem não se mexer muito sobre a crise. Reclamam. Reclamam mais um pouco. Falam que a crise dificulta isso ou aquilo, que era melhor no tempo do Escudo, que a vida está difícil e não há vagas de trabalho. E por que não partem aquela merda toda como os gregos?

Eu sou super a favor dos panelaços argentinos. Em comparação com o conformismo brasileiro, nossos-coleguinhas-hablantes-de-español cá na América Latina nos dão um banho. É só o governo Kirchner aprovar qualquer lei que foda com a vida deles, que o povo sai às ruas para bater panelas (e partir qualquer coisa também!). Os manifestos em frente a Casa Rosada já são praxe, e a maioria dos turistas que vai a Buenos Aires acaba fotografando junto com a multidão que grita pelo que acredita ser o justo.

O problema deve ser genético. Tudo bem que Portugal conta com algumas raízes romanas em sua construção, mas acho que não herdaram o espírito guerreiro. Depois, Cabral chegou ao Brasil, e acabamos herdando cá esse conformismo.

Podem até citar a Revolução dos Cravos portuguesa ou os Caras-Pintadas brasileiro para justificar alguma luta do povo por direitos. Aliás, aqui no Brasil vira-e-mexe acontece algum protesto em frente a alguma instituição pública, mas nada de muita repercussão.

Deveríamos (portugueses e brasileiros) tirar algumas lições com os gregos. A principal delas seria como reagir ao que nos é imposto. Talvez a solução da crise provavelmente não resida em “partir aquela merda toda”, mas quem não faz barulho não é ouvido e fica no fundo do poço até morrer de inanição.

14 comentários

Filed under Europa, Grécia, Portugal

14 responses to “A crise europeia: Grécia x Portugal

  1. Manuel

    ui…mega dedo na ferida. Em primeiro lugar, muito antes de Pedro Álvares Cabral, Portugal já existia há muitos séculos. Ou seja, muitas crises e muitas batalhas. Os Romanos viram-se ‘gregos’ (:)) para conquistarem um certo território na P. Ibérica. Razão: os Lusitanos. Pois é…Viriato era foda. Depois, séculos e séculos a lidar com as tentativas de Castela (os espanhóis): guerras, intrigas familiares entre famílias reais, esquemas de sucessão. O máximo que conseguiram foi uma ocupação de 60 anos, na viragem do século XVI para o XVII. Em 900 anos, irrelevante. Estas graçolas de xicos-espertos a circular na net, a insistir no retrato do tuga retardado, só retrata quem as faz – esses sim com sérios problemas.
    Pois bem, os Gregos que partam aquela merda toda. Do que lhes vai valer isso? Ainda mais despesa, por certo…quem paga, manda. E por muito que partam, vão ter sempre de pagar. Os alemães tão-se a lixar para que os gregos destruam ou incedeim Atenas. E afinal, por enquanto e ainda no papel, aquilo é deles… Eu cá na minha ignorância saloia prefiro uma contestação pacífica, e não querendo parecer um betinho parvo de direita, acho mesmo que é uma oportunidade para fazermos uma restruturação. Quanto à Grécia…desde que soube que nem os livros pagavam na universidade mudei um pouco a minha opinião. E como podemos comparar a nossa realidade com um país que não faz fronteira física com nenhum outro membro da UE, não usa o mesmo alfabeto, que tem uma história militar complicada, uma vizinhança hostil com a Turquia, etc, etc…As coisas mudaram, o queixume é irritante (sim é) mas eu nesta altura estou mais concentrado em sair do buraco de forma construtiva e não destrutivamente – obviamente estando atento e contestando civilizadamente.

  2. Pedro

    A contestação social dos gregos não lhes vai levar a lugar nenhum porque a dívida deles é tão grande que mais tarde ou mais cedo vão dar o calote e sair do €uro, o governo está a tentar salva-los. Acho que entendemos que a desunião social neste momento só vai trazer mais dificuldades, tanto que o governo que foi eleito nas ultimas eleições (psd-centro direita) tinha dito que ia fazer mais cortes e que ia haver mais austeridade e mesmo assim os portugueses deram-lhe o voto. Já houve e há algumas greves em Portugal mas raramente se parte para a violência, é preciso também referir a ideologia política de um país conta muito e a Grécia está cheia de anarquistas assim como a Espanha. Portugal é um país socialista mas mais no sul (devido ao tipo de organização social que havia no sul, toda a gente trabalhava para os grandes latifundiários, enquanto no Norte todos tinham o seu pedaço de terra para cultivar e para se sustentar, acho que herdamos isso dos visigóticos) como tal não há tanta tendência para a revolta social.
    Acrescento também que o que me revolta é não ver quem governou Portugal nos últimos 6 anos (Sócrates) na barra do tribunal, esse homem simplesmente duplicou a dívida publica portuguesa em 6 anos…
    É a minha opinião

    • Afonso

      O perdão de 50% não é propriamente perdão…falam como se isso fosse uma coisa boa. Quem fez a imagem obviamente não sabe das coisas! Nestas coisas da dívida eu…divido-me.. Depois do crash de 2008 todos os governos se endividaram – tanto de direita como de esquerda. A questão é que uns tinham melhores condições do que outros para o fazer. Veio a trafulhice das contas gregas e abriu-se uma janela de oportunidade: o rating atacou, imprensa e mercados à carga e…zás! começou o dominó. Se nós somos a Grécia? Não, não somos e por muito que toda a gente queira que sejamos, nop. A porrada na Grécia não tem servido de nada, a contestação dos indignados vai resultar na vitória da direita (e que direita a deles!)…agora, quanto ao Sócrates…pois, seria bom culpar alguém e direccionar a raiva mas depois aparecem-nos casos como o BPN e a Madeira – mega buracos do PSD! Assim fica complicado…o problema vem de trás, agora é corrigir, acabar com o nepotismo, e ficar de olho no discurso populista. Estóicos podemos ser, mas há limites para tudo, e a economia internacional está tão mal (excepto emergentes) que a qualquer espirro a casa abana toda.

  3. Ana

    O politicamente correcto seria a solidariedade com a Grécia. Mas há uns ‘mas’…vários… Em primeiro lugar, como a Grécia não faz fronteira física com a UE talvez se tenha comportado como uma ilha (ring a bell?) e muita coisa aconteceu sem que ninguém soubesse. O facto de terem cozinhado as contas arrastou-os para um buraco sem fundo – e injustamente lá fomos todos nós atrás. Muito nos queixamos aqui sobre o bloco central PS – PSD. Agora imaginem que na Grécia, para além de partidos, são famílias que ao longo de décadas rodam no poder: obviamente o clientelismo é medonho. Enquanto o nosso ordenado mínimo nem sequer ultrapassa os 500 euros, o deles ronda os 900 euros: onde está a produtividade que o justifique?! Educação grátis incluindo a universidade – com direito a livros pagos pelo estado – Hello? Acham isto bem, nós alguma vez tivemos isto? Compara-se???? E agora esta confusão: não querem reformas, mas não querem abandonar o euro. Querem a UE, mas não querem pagar a dívida.
    E por muito democrático que parecesse, a brincadeira do referendo da semana passada afundou ainda mais a zona euro.
    Obviamente, dadas as circunstâncias, não podem exigir que tudo fique na mesma sem ajustes e sacrifícios.
    Por todas estas coisas é que considero estas comparações ridículas e desinformadas. Lamento, mas o tecto pode nos cair em cima, mas nunca fomos e não somos a Grécia.

    • fernandapugliero

      Ana, mas quem disse que Portugal é a Grécia? O post foi uma comparação de atitudes perante a crise econômica. Não sei até que ponto a atitude dos portugueses de “baixar a cabeça” e deixar acontecer está correta. Também não sei até que ponto os gregos fazem bem “partindo aquela merda toda”. Cada um encontra a melhor solução conforme seu contexto e histórico.

      No fundo, o post é uma crítica ao conformismo, que ocorre tanto em Portugal quanto no Brasil. Também temos vizinhos (os argentinos) que costumam protestar com frequência quando alguma crise se aproxima ou quando o governo inventa uma medida que ferre o cidadão.

      • Ana

        Olá Fernanda, eu entendi o seu texto e o meu post foi de resposta à imagem que inequivocamente procura comparar os dois países – aquilo que quero sublinhar é que não se podem comparar Portugal e a Grécia pois as sociedades e circunstâncias são muito diferentes. Que façam esta comparação os jornais económicos americanos, cheios de ignorância especulativa.
        Não sei como é o Brasil neste aspecto da passividade, mas penso que já não se poderá afirmar que descende directamente dos portugueses…já passaram uns séculos.
        Bater panelinhas na rua, incendiar carros e partir montras não são alternativas a uma participação prévia na sociedade e política. Temos de estar atentos e participar antecipadamente – de forma preventiva.
        Não concordo que a sociedade portuguesa esteja a ser passiva, penso que está a ser estóica, o que é substancialmente diferente.

      • Felipe

        Entre o conformismo brasileiro e a situação econômica atual na argentina, fico eu com o “conformismo” brasileiro…parece que o queixume não esta dando tanto resultado.
        De certo, quando tivermos algum problema familiar devemos então logo sair ateando fogo na casa? A conversa é a melhor opção,não? Caso contrário ficaríamos mesmo sem casa ( ou sem país).
        De fato, não acredito na colocação de que o brasileiro ou português seja conformado, apenas por não fazer panelaço e quebra-quebra, isso pra mim significa ser vândalo. Acredito sim que não ser conformado seja criticar de forma construtiva e decente.
        Por fim, qualquer brasileiro sabe que um dos objetivos de Brasilia como capital, foi de inviabilizar as constantes manifestações que ocorriam no tempo de Rio de Janeiro capital. Devido as inúmeras características da atual sede política…de certo que não vou citá-las uma vez que estão disponíveis facilmente na internet. Inviabilizou sim o quebra-quebra, e sou a favor…mas não nos impediu de pensar como criticar de forma civilizada.

  4. Manuel

    Tenho acompanhado, nas últimas semanas, o que se escreve sobre o tema Grécia em A Folha de São Paulo e em O Globo online. Sinceramente, não sei se estes jornais têm muita relevância, se estão mais para Público ou se para Correio da Manhã (no contexto brasileiro), mas a secção de comentários mete medo. Há gente que reza pela quebra da Europa, e mesmo que o assunto seja Grécia, há sempre alguém que diz: ‘E Portugal é a seguir, esse país atrasado!!!’ Gente doida e ignorante há em todo o lado, sobretudo quando se escondem atrás de um teclado de computador, mas o pior é quando os próprios jornalistas são tendenciosos – li uma opinião de uma senhora chamada Cantanhêde que me assustou (na Folha de SP). Eu não sabia que havia, mas há um problema. Ontem ambos os jornais diziam que quinta-feira (ontem, era terça…mas enfim, diziam quinta) os comboios tinham parado em redor do país (eu fiquei a pensar que afinal era em Espanha🙂 ), e a legenda dizia Caes em vez de Cais. Ou fui eu que acordei para o tema tarde ou simplesmente ando a ler o que não devo, mas uma coisa é certa, nunca o partilharei com a minha mãe que anda tristíssima porque o Insensato Coração passa muito tarde!

    • fernandapugliero

      De fato, a Folha de São Paulo errou na legenda da foto http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1003472-ferroviarios-fazem-greve-em-portugal-devido-a-corte-de-gastos.shtml. O correto seria cais!

      A Folha e O Globo tratam-se dos dois maiores veículos de mídia da região mais importante do Brasil, a sudeste. Não posso julgar se são tendenciosos ou não, pois não possuo conhecimento para tanto. No entanto, digo-te que estão sim a criticar (e muito) Portugal na mídia brasileira. Aliás, não só na mídia. A imagem que a maioria dos brasileiros faz de Portugal é ruim, a de um país atrasado, povo burro e encostado na UE. Dizem ainda que Portugal só é considerado país desenvolvido, pois está próximo aos gigantes europeus.

      Sou defensora de Portugal nesse ponto. Não concordo com a maioria das críticas. No entanto, esperava alguma reação perante essa crise de um povo que queixa-se de ter trocado Escudo por Euro há tempos…

      • Pedro

        Mal eles sabem que a UE é um pau de dois bicos. Acho que há muita gente a leste do que é a UE, pensam que é um mar de rosas e estão errados. Mas fica para outra altura e para outro post.

      • Manuel

        Uau…então e depois queixam-se da xenofobia?! É que ninguém é de ferro! Felizmente a maioria dos portugueses não sabe disso: o Brasil é assim como uma novela da globo em que toda a gente é bonita, as ruas são arranjadas e as pessoas muito simpáticas. Para outros, uma minoria, é como uma programa da Tv record, com perseguições e tiroteios…Se a burrice fosse genética então…mega telhado de vidro! Não?! Na escola primária havia uma coisa que os miúdos diziam uns aos outros: “Quem mais diz é quem mais é!”🙂
        Em relação ao escudo vs. euro acho que ainda não entendeste bem a razão da queixa:

        1. em primeiro lugar o escudo existia há quase 100 anos, e foi implementado logo após a República (ante circulava o Real). Esta moeda manteve-se estável ao longo do século XX – penso que no Brasil a coisa foi diferente, com o Cruzeiro, Cruzado e Real – e só foi substituído pelo euro porque a UE achou que sim, que seria o máximo para todos, que era a ‘bomba’ – mas afinal não era e os portugueses nunca puderam decidir se sim ou não. Foi imposto. Quem gosta de imposições?!

        2. antes do euro a referência eram os 100 escudos, uma moeda muito morfologicamente muito parecida com o 1 euro. As compras na rua, a simples sandes, um café, pequenas mercearias, etc, ficavam abaixo dos 100 escudos. Assim que entrou o euro a referência passou a ser a moeda de 1 euro, que equivale a mais de 200 escudos. Logo, de Dezembro para Janeiro o custo de vida aumentou substancialmente. 50 cêntimos (ou seja, cerca de 100 escudos) nem para uma viagem de metro já davam…isto foi legal?!

        3. a moeda própria é uma ferramenta da soberania dos estados. Ou seja, o facto de poder imprimir moeda permite que um estado se afirme autonomamente mas também regule internamente a inflação e o valor da própria moeda. Se tivéssemos o escudo, o governo podia decidir desvalorizar a moeda e tornar a economia mais competitiva – a saída para a crise seria 5xs mais fácil. Como não pode desvalorizar o euro, porque existem tratados, e os sócios europeus não querem e não podem, a única maneira que existe de momento é aumentar impostos, reduzir salários e aumentar os horários laborais – ou seja, desvalorizar o valor do trabalho.

        Estas são só três, mas há mais.

        Obviamente o que a Fernanda parece querer dizer é que somos todos muito agarrados à tradição, com umas palas nos olhos e que por isso não paramos de falar do escudo – do passado, que passou e pronto. Mas entenda que há razões económicas para o ‘queixume’.
        Eu não estou agarrado ao passado, estou é agarrado ao bolso!

      • Tiago

        Então com isso está a dizer que os brasileiros são um povo preconceituoso e racista. Já viu se se dissesse o mesmo de negros ou judeus?

  5. A. Lemes

    Agora falo um pouco do Brasil…
    90% da imprensa brasileira é tendenciosa. Fazem campanhas institucionais políticas em formato de notícia. Principalmente a Globo e a Folha. Um exemplo que cito é o futebol brasileiro (dono do maior ibope televisivo) que hoje a Globo detém os direitos. Entre os anos de 1999 e 2000 a Globo começou uma investigação sobre a corrupção que ocorria dentro da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), em principal seu presidente Ricardo Teixeira. Ocorre que este (RT), em resposta, tirou os direitos de transmissão da “Copa do Brasil” da Globo e passou à sua maior concorrente (na época), o SBT. A Globo recuou, encerrou o assunto e nunca mais falou mal da CBF.
    Citei apenas este exemplo para vocês entenderem um pouco como funciona a imprensa aqui no Brasil.
    A Globo forma opinião de 80% da população. Principalmente nas regiões mais periféricas onde as pessoas não têm acesso a informação. Isso acaba estreitando uma forte aliança política entre a emissora e os governantes do país. Então a Globo divulga o que convém aos políticos, que em troca, oferecem exclusividade em reportagens e acesso às informações internas.

    Para se ter uma idéia, em alguns estados (que vocês chamam de distritos) como Goiás, Alagoas e Amazonas, ainda reina o que chamam de “coronelismo”. Políticos chegam até a contratar assassinos profissionais (sim, aqui no Brasil é profissão!) para matar pessoas que falam de mais e atrapalham seu “plano de governo”. Principalmente em época de eleição, onde começa a surgir casos de assassinatos a empresários, jornalistas e até mesmo vereadores de oposição.

    Onde quero chegar com isso? Que o povo brasileiro sabe que aqui neste país não se pode falar muito ou fazer manifestações. Quem está no poder sempre vence e quem se manifesta acaba sendo preso ou até…morto. E é “apenas” por isso que o Brasil, em sua população, sente calado toda essa patifaria que ocorre nesta parte perdida da América.

    ** Post longo demais, sorry!

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