Desabafo geológico

Se eu tivesse nascido em Portugal, eu saberia que não existe um rio chamado Sarzedas. A tal bacia homônima é de acumulação de sedimentos. Nada tem a ver com um rio ou qualquer coisa que remeta ao termo “bacia”, aquando da utilização (normal) juntamente com a palavra hidrográfica.

Se eu tivesse nascido em Portugal, eu teria noção de onde fica o anticlinal do Buçaco, mesmo não sendo de Coimbra. Se eu tivesse nascido em Portugal, seria mais fácil saber onde se localizam os depósitos de mármore, granito e o complexo xisto-grauváquico (que nome lindo!).

Se eu tivesse nascido em Portugal, eu distinguiria a localização da Serra da Arrábida com a da Ponte Arrábida! Uma fica ao pé de Lisboa, outra separa o Porto de Gaia. Para mim? O nome é o mesmo, a primeira ligação sempre foi essa.

Se eu tivesse nascido em Portugal, teria passado em Geografia Física de Portugal no ano passado. Eu logo entenderia os conceitos porque teria conhecimento prévio sobre os lugares estudados, seja através de uma reportagem de tv ou em uma viagem de final de semana com meus pais.

Mas eu não nasci em Portugal. E, por conta disso, não durmo antes das cinco da manhã há duas semanas. E eu só consegui dormir nos dias anteriores, porque fingi que o dia do exame nunca chegaria.

Depois do Ano Novo, a ansiedade foi inevitável. Eu respiro Cretácico, como Mesozóico, bebo Paleozóico e digito Pré-Câmbrico. Já sei o que é flysh, molasso, graben e horst. Mas não me sinto segura. Parece que não basta.

Talvez seja porque eu nunca tenha reprovado em uma disciplina antes. Aliás, eu NUNCA reprovei em nada antes de Geografia Física de Portugal.

Estudar em Portugal é complicado quando a matéria envolve 540 milhões de ano de História geológica de um lugar que eu não posso dizer que conheço direito. Sei me localizar perfeitamente no Porto e andar pelos concelhos envolventes. Também sei que o metro daqui é em maior parte superficial porque a rocha “por baixo” da cidade é muito dura. É granito. Alcalino. Aliás, granito alcalino do Porto. Mas isso eu só descobri depois…

O que eu quero dizer, ou melhor, desabafar, é que eu não tenho culpa se eu falhar de novo na segunda-feira. Eu não sabia. Já digo de antemão: Se alguma questão estiver estupidamente errada ou eu não fizer ideia da resposta, é porque eu não nasci aqui. Isso deveria ser uma componente da avaliação, inclusive. Os estudantes Erasmus e de intercâmbio sempre ganham colher de chá porque não estão acostumados com o método de avaliação, porque ficaram bêbados na noite anterior ao exame ou porque tinham que viajar para Londres já que a Ryanair fez uma promoção de 5 euros ida e volta (aliás, me avisa se vir uma dessas…).

O resto? O resto tem obrigação de saber algo que nunca estudou no secundário, nem viu na tv (até pq não tenho em casa) e não consegue assimilar em pouco tempo. Isso porque são 540 milhões de transformações tectônicas, magmáticas, metamórficas, de litologia e tudo o mais que se tem direito…

Cara, eu tô desesperada!

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Pelo menos, de uma coisa eu tenho certeza: Se eu tivesse nascido em Portugal, isso nunca teria acontecido! Eu já teria passado com uma boa nota. E de primeira!

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1 Comentário

Filed under Porto, Portugal, Vida Portuguesa

One response to “Desabafo geológico

  1. “Cretácico, Pré-Câmbrico”
    Vou chamar assim aqui.

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