Um problema, de facto

Quando o novo acordo ortográfico entrar em vigor, é óbvio que somos nós brasucas que saímos ganhando. Caem todos os “cês” e “pês” inúteis da língua portuguesa de Portugal. Apesar disso, hoje parei para pensar, e fiquei com pena dos tugas. Eles aprenderam na escola a escrever assim e falar assado, ou seja, escrever com os “cês” e “pês” que não aparecem quando lêem as palavras.

Eu já tinha refletido sobre isso, mas daí logo pensei: “É só uma questão de costume e contexto”. Ninguém irá confundir palavras que ficam com a grafia semelhante. Hoje falando com uma colega de aula, achei uma “falha no sistema”.

Ele esteve lá de fato.

Em português (antigo) de Portugal, diria-se que “ele esteve lá de facto”, se de fato ele esteve naquele lugar. Porém, o sujeito também poderia ter estado lá vestindo um fato (terno na “língua” brasileira). Isso confude. É um problema. De fato!

O fato português é o terno brasileiro

Se bem que a palavra “terno” também pode ser um adjetivo. Tudo bem que sempre remete primeiro ao tipo de vestimenta, mas, dependendo de quem fala ou de quem escuta (e também da semiótica envolvida na questão), pode ainda dizer respeito à ternura de alguma coisa. Uma coisa terna. “Um coração terno”, por exemplo (diga-se de passagem, exemplo horroroso, mas não consegui pensar em nada melhor!).

Vou continuar refletindo sobre o tema e tentar encontrar qualquer outra frase que possa ser dúbia. É provável que ainda irei encontrar diversos exemplos para isso, porém eu concordo com o acordo. Todas as línguas são mutantes. Língua que não muda, está morta (olha o caso do amigo latim…). Os dialetos e gírias transformam algo que não deve parar no tempo. Imagina se ainda estivessemos falando “Vossa Mercê” ao invés de “Você”. É claro que “Fixe” não é o tipo de palavra que deveria aparecer nos dicionários, mas, de repente, até está lá (Nota mental: verificar isso!). Aliás, “fixe” não vem do verbo “fixar”. Fixe é um adjetivo, que significa “legal” na tradução para o português do Brasil.

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8 comentários

Filed under Brasil, Portugal, Vida Portuguesa

8 responses to “Um problema, de facto

  1. Mariana

    Boa noite!
    Em primeiro lugar, gostei muito do seu blog. Muito mesmo! Mas devo comentar que, mesmo com o novo Acordo, os portugueses falarão e escreverão “facto”. Isso porque só caem os “cês” e “pês” que são mudos. Todos os que são falados de fato (ou facto, depende da nacionalidade! =D) serão mantidos. Talvez alguém já tivesse esclarecido isso, mas achei que deveria dizer, por via das dúvidas!

    Abraços.

  2. fernandapugliero

    Olha Mariana, posso estar enganada, mas o c de facto é mudo. Não se lê. Tá certo que alguns falam, mas não é o correto. O c de facto cai sim. Os portugueses vivem falando disso. Até nos jornais que já aderiram ao novo acordo, esse c não existe mais!

  3. Mariana

    Ah, sim. Acredito que os jornais tenham adotado, mas é facultativo. É tão correto dizer e escrever facto quanto fato. Só mudarão os portugueses que quiserem, pois não há necessidade.
    Se quiser dar uma olhadinha no Acordo, tem um manual online: http://www.atica.com.br/novaortografia/index_.htm

  4. fernandapugliero

    Enfim, então muda. Muito embora não seja obrigatório, as pessoas vão mudar. É mais fácil cortar todas as consoantes que estão “sobrando” do que pensar qual delas fica e qual delas caem… hehe

  5. A gente daqui “ganhando” da europa nas letras.
    Emocionante.

  6. Camila

    Leigos, por favor, falem do clima, do amor, do tempo… Mas parem de falar sobre o que não entendem e deixem que quem estuda a língua reflita sobre o assunto.
    Linguística é ciência.

    Grata.

    • fernandapugliero

      Cara, eu gosto de ser polêmica, mas nunca imaginei que o motivo da polêmica que causo seria tão banal. O estudo das línguas e linguagens pode ser até uma ciência, mas falar sobre o clima e tempo também envolve um pouco disso.

      Como isso se trata de um blog, escreverei o que me apetecer, pois nunca deixei de fazer isso e não é agora que vou deixar. Por esse motivo, também sempre estou aberta a críticas e sugestões. Fico feliz que tenhas comentado aqui, Camila. A maioria das pessoas deve ler, se indignar e se fadar ao silêncio.

      🙂

  7. RN

    Caríssimos, “facto” é diferente de “fato”. O “c” não é mudo, como também não o é nas palavras que deriva: factual, factualidade. São relativos às circunstâncias concretas de determinada situação/condição. Ao contrário da ideia que circula, e que está errada, o “c” na palavra “facto” é pronunciado com toda a propriedade.

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