As irmãs Santos

O segurança da área de embarque do aeroporto Sá Carneiro me conhece bem: ”A menina brasileira que, de tempos em tempos, chora por causa de alguém que vai embora”. E eu choro sim. Nem sempre o faço em público, mas às vezes é inevitável. Hoje aconteceu de novo.

Dormi tarde ontem. Passava das três quando cheguei em casa. Devo ter ido dormir lá pelas quatro. Acordei com o despertador, às sete e tal. Não lembro se fui eu que liguei pra acordar a Carol ou se ela quem o fez. Tenho dormido muito pouco ultimamente. Sai de casa, meio tonta ainda, quando passava das oito. Demorei um ano para chegar no prédio número 65 da Praça Coronel Pacheco.

No caminho, lembrei do dia em que a Débora citou sua irmã pela primeira vez. Eu provavelmente devo ter perguntado se ela era mais velha ou a caçula. Passados alguns meses, conheci a irmã da Débora pessoalmente: Uma menina de sorriso gigantesco, dentes extremamente brancos, cabelos pretos e lisos sem chapinha, que estava sentada no sofá da sala-cozinha do apartamento recém alugado pelas irmãs Santos.

Ela já havia morado no Porto e voltou para completar o mestrado. A irmã menor renovou o contrato de intercâmbio por causa disso e ambas se tornaram as melhores vizinhas que já tive na vida. Se eu estava com fome, elas cozinhavam qualquer coisa pra mim – ou faziam uma tosta mista! Quando eu queria compania para comer, levava meu prato e copo para lá. Se a internet falhava em casa, sempre tinham um Vaio pra me emprestar.

Hoje, no caminho entre a minha casa atual e a casa delas, que agora passou a pertencer a outras pessoas, lembrei das inúmeras vezes que fomos passear no Norte Shopping ou comprar na Factory na última quinta-feira do mês. Vimos Lua Nova, Eclipse e algum outro filme juntas no cinema. Levamos tanta gente no aeroporto. Viajamos a Lisboa e a Lage, em Vila Real. Bebemos no Piolho, reclamamos do público do 77 e dançamos nas festas Erasmus. Almoçamos, jantamos e tomamos o pequeno-almoço juntas tantas vezes. Comemos Francesinhas, pizzas, cachorros-quente e tomamos muita coca-light. Guardamos caixinhas de Ice Tea para eu fazer minhas bolsinhas. Escolhemos pijamas para a Débora na Oysho e catamos blusinhas na promoção da Zara.

Elas ajudaram nas minhas inúmeras mudanças de apartamento, me deram força quando estava triste, falaram que tudo sempre ia dar certo. Foram elas que aprovaram meu namorado e xingaram minha professora de alemão quando reprovei. Débora sempre me incitava a chutar o barraco, quando eu me magoava com alguém. Carol optava pela paz e repetia: ”Tenta se acalmar, pensa no que vai fazer e não usa palavrões”.

Carol tem a voz suave. Quando a Débora fala, sentem-se os agudos. Carol atende o telefone dizendo ”oi Fê” e sempre parece que ela estava a dormir antes de fazer isso. Já a Débora exclama um ”oi Fê” mais intenso. Se eu fecho os olhos, consigo imaginá-la sorrir enquanto fala meu nome.

Vou sentir falta delas. Aliás, me despedir da Débora só foi fácil porque a Carol ficou aqui para me consolar. Agora, não tenho ninguém para me fazer café enquanto conto o quão triste estou por me despedir das minhas melhores amigas.

Amo pra sempre

1 Comentário

Filed under Vida Portuguesa

One response to “As irmãs Santos

  1. Explicação muito boa sobre orkut. bom trabalho.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s