Intercâmbio: Um teste de paciência

Ninguém gosta de esperar. Filas, respostas ou cartas de aceite. Tudo entra no mesmo balaio. Ninguém quer ansiedade, frio na barriga e decepção em sua vida.

Tenho notado que alguns dos brasileiros que vêm estudar na UP no ano letivo de 2010/2011 ainda não receberam as cartas de aceite, nem mesmo por e-mail. Digo mais uma vez: Ninguém gosta de esperar, mas às vezes é necessário. Nem sempre se é o primeiro da fila!

Aliás, a carta de aceite só é o primeiro teste de paciência.

Carta de aceite, passagem, visto, lugar para morar, colegas de apartamento, ensino nos moldes Bolonha. É paciência em ordem crescente.

Esta semana, decidi entrevistar Carolina Bogéa. Minha estagiária é praticamente um modelo de intercambista. Passou nos testes de paciência porque sempre soube gerir bem as situações. Há sempre um momento em que vamos “pedir pra sair”, mas isso é passageiro. No fim das contas, colocando tudo na balança, vale a pena esperar🙂

"Sinto que o Porto vai deixar muita saudade", diz Carol, que retorna ao Brasil no dia 21 de agosto

Confira entrevista na íntegra abaixo:

Fernanda – Como foi o seu processo de aceite?

Carol – Meu processo de aceite foi tenso! Pra começar, a minha universidade enviou os documentos no dia 10 de novembro, um pouco tarde se comparado às outras. E desde então, eu acessava meu e-mail diariamente. De repente, eu poderia ter a sorte de receber a carta antes do previsto.

Entrei na comunidade da BRASUP no Orkut e lá havia um tópico onde todos os alunos que se candidataram para vir em 2010 estavam se apresentando. Detalhe: A maioria já havia recebido a carta. No dia 18 de Dezembro três amigos da minha turma receberam a deles, três cartas no mesmo e-mail, o que me deixou ainda mais nervosa e com o receio de não ter sido aceita. Na mesma hora mandei um e-mail para a Luísa Capitão, querendo notícias boas, eu precisava dormir aquela noite. Alguns minutos depois, ela me respondeu:

“Olá Carolina,
Pode ficar tranquila. A FEUP já comunicou a sua aceitação através de e-mail há umas horas, no entanto aqui passa das 20h30min da noite (3 horas depois do fim do expediente) e eu tenho um jantar de Natal.
Perdoe-me, mas parto hoje para férias pelo que só poderei enviar a sua Carta de Aceitação no dia 4 de Janeiro, ok?
Obrigada pela compreensão.
Até breve!
Luísa Capitão.”

Ufa! Tive um final de ano tranquilo!

Enquanto isso, agilizei os outros documentos necessários para o visto, uma vez que eu havia sido agendada para comparecer ao consulado no dia 6 de Janeiro. Chegado o dia 4 de Janeiro, a minha carta não havia sido enviada. Voltei a ficar desesperada, pois faltavam dois dias pra eu dar entrada no visto e sem a carta, sem chance. Lá vai outro e-mail pra Luísa, e no dia 5 pela manhã, tinha um novo e-mail na minha caixa de entrada:

Assunto: Aceitação para Intercâmbio na U.Porto: Carolina Bogéa da Costa – POLI UFRJ

Agora era oficial!

Fernanda – Como fez com a passagem?

Carol – Como o Consulado de Portugal exigiu a cópia dos meu bilhetes de passagem, tive que comprá-los antes de dar entrada no visto. Uma amiga me indicou a STB, que vende passagens com tarifas para estudantes e assim eu fiz. No dia 29 de Dezembro comprei a passagem da TAP por R$ 1739,00, na verdade o valor era em dólares e eles fizeram a conversão de acordo com a cotação do dia. A previsão de saída do visto era de um mês após a data do agendamento da entrega dos documentos, por isso marquei minha passagem para o dia nove de Fevereiro.

Por sorte, meu visto saiu no dia oito de Fevereiro, exatamente no dia que haviam mandado eu retornar ao Consulado, mas alguns amigos não tiveram a mesma sorte. Eles haviam comprado a passagem para o mesmo dia, mas o visto não ficou pronto e nem tinha previsão. A passagem deles ficou em aberto e, assim que o visto ficou pronto, tiveram que remarcar a data do vôo e pagaram uma taxa de aproximadamente R$ 500,00.

Como eu vim disposta a ficar um ano estudando na U.Porto, a minha passagem de retorno era pro dia 27 de Novembro, a data máxima que o sistema permitia marcar na altura em que comprei as passagens. Logo, em Agosto, eu teria que fazer uma alteração e remarcá-la para Fevereiro de 2011. Mas passados três meses em Portugal, meus planos mudaram e decidi ficar apenas um semestre.

O que me fez voltar antes do tempo? Além de sentir muita falta da minha vida no Brasil, da família, amigos, estágio, faculdade, achei que não valeria a pena ficar mais seis meses para cursar disciplinas que não faziam parte do meu ciclo profissional, sem contar que o ensino da minha universidade brasileira não deixa nada a desejar comparada a UP. Essa semana remarquei a minha passagem  (isso me custou 101 euros) e no dia 21 de Agosto às 21:20, desembarco no Aeroporto Antônio Carlos Jobim, o Galeão.

Fernanda – Como achou casa?

Carol – A casa que moro, achei pela internet. Não lembro o site, mas eu passei dias digitando no google.pt  algumas palavras chaves como: “quarto/apartamento para arrendar no Porto”, e clicava em tudo que aparecia. Alguns mais interessantes até adicionei aos favoritos.

Numa dessas buscas achei um anúncio que parecia interessante: “Tenho três quartos individuais para arrendar próximo da FEUP por 170 euros/mês com as despesas incluídas (água, luz e internet)”. Como eu vinha com mais duas colegas de turma, achei que esse seria ideal de acordo com as nossas exigências e dentro do orçamento. Entramos em contato pelo telemóvel com a senhoria do anúncio e ela nos passou as fotos. Antes de dar qualquer resposta pra ela, pesquisamos outros lugares, alguns longes, outros muito caros ou com quartos duplos (cada uma queria ter seu quarto), achamos um muito bom, mas exigia um fiador português… It’s impossible!

Retornamos o contato com a Alice, a dona dos três quartos próximo da FEUP por 170 euros… Ela nos adicionou no msn e tiramos todas as dúvidas possíveis! Decidimos por arrendar os quartos, já que o preço e a localização nos interessava. Ela ainda facilitou e não exigiu nenhum adiantamento, não exigiu contrato, confiou apenas no nosso ‘sim, nós vamos ficar com os quartos’.

Fernanda – Como foram os primeiros dias?

Carol – Cheguei no dia 10 de Fevereiro, mês de SALDÃO! Tudo é muito barato, dá vontade de botar fogo no guarda-roupa e renovar tudo. Comprei casaco na Zara por 7 euros, menos de 20 reais! Nem na C&A no Brasil eu encontro isso, e me arrependi de ter comprado roupa de frio antes de vir pra cá. Até porque, eu tinha a sensação de que as minhas roupas não estavam nem um pouco de acordo com a moda do Porto, tampouco preparadas pra suportar o frio daqui.

Em relação à adaptação, os primeiros dias foram terríveis… Sai do Rio de Janeiro com os termômetros marcando 45 graus e, quando desembarquei no Porto, marcavam 4 graus, com sensação térmica de 1 grau. Passei noites de frio, muito frio mesmo. O meu aquecedor era com bujão de gás, por isso não podia dormir com ele ligado. Além disso, eu estava sozinha em casa, pois as meninas que viriam comigo tiveram problemas com o visto que não saiu a tempo. Os outros dois quartos vazios, o silêncio da casa, o frio, a distância de aproximadamente 8.000km, eram motivos para vontade de voltar pro Brasil não passar.

No mesmo dia que cheguei, fui ao shopping e comprei um computador que me fez companhia, pois seria impossível passar esses dias aqui sem ter contato com as pessoas que deixei no Brasil. O preço do computador? 379 euros, aproximadamente 910 reais… Um Acer com 4GB de memória e 500GB de HD. Salvou meus primeiros dias!

Fernanda – Como tu te sentes agora que tem a passagem de volta marcada?

Carol – Apesar de ter passado pela ‘crise dos três meses’ e querer voltar o mais depressa ao Brasil, agora sinto que o Porto vai deixar muita saudade. Os dias estão passando rápido, algumas pessoas já estão se despedindo e a ficha caiu! Mais dois meses e abandono as terras lusitanas.

Não gosto de despedidas, se eu pudesse sairia daqui ’de fininho’, mas pretendo sair pra jantar e reunir as pessoas queridas que ainda tiverem por aqui. Vai ser difícil manter o mesmo contato que tenho aqui com as pessoas, mas vou fazer o possível para reunir o pessoal que mora no Rio de Janeiro… Os demais, o msn, Orkut e Facebook ajudam a matar a saudade.

Fernanda – Quais serão as lembranças mais marcantes que terás do Porto, Portugal e Europa?

Carol – As lembranças são muitas! Vou lembrar sempre das festas, das viagens, das pessoas, dos jantares, da Rua Santa Catarina, dos saldões, do outlet e da Ryanair, claro! O hábito que mais vou sentir falta é de acessar o site da Ryanair pelo menos cinco vezes por dia e esperar ansiosa pela troca da promoção.  

O intercâmbio me tornou uma pessoa mais tolerante, aprendi a aceitar e conviver melhor com as diferenças. Acho que a independência é algo que aprimorei aqui, mesmo com o suporte financeiro do meu pai, tive que me preocupar em administrar o dinheiro, pagar contas, fazer compras, cozinhar, limpar casa, responsabilidades que não eram minhas no Brasil.

2 comentários

Filed under Vida Portuguesa

2 responses to “Intercâmbio: Um teste de paciência

  1. cunhamack

    E que teste eim…
    Já fui reprovado em alguns itens, mas depois que chegar minha carta acho que terei paciência pra qualquer coisa.

    Pelo menos já li todo o blog =P.

  2. Pingback: Apresentação intercâmbio Porto, Portugal | Vida Portuguesa

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