Vida Portuguesa II

Uma vez me disseram que não nascemos em determinado lugar por acaso. Assustei-me ao ponderar que nunca havia pensado nisso antes. Alguém pode ter nascido no Brasil, por exemplo, simplesmente para ser capaz de deixar o lugar onde sua maternidade está. Não falo em abandonar a nacionalidade ou ser menos patriota, apenas remeto ao exercício do desapego.

É fácil desapegar do costume de observar onde se pára o carro de madrugada ou de ficar atento às paradas em sinal de trânsito depois da meia-noite. Acostuma-se fácil a entrar gratuitamente em festas e se locomover para qualquer lugar de transporte público. Os europeus exercem maior formalidade em relação aos brasileiros e falam mais baixos – especialmente se comparar com o tom de voz carioca… sem preconceitos!

É bom ser brasileira fora do Brasil. Viajar para os confins da Polônia e contar ao garçom do bar where are you from. Sempre tem alguém, em qualquer beco do mundo, que ama o Brasil ou que vai perguntar se a capital do maior país da América Latina é o Rio de Janeiro. A fama dos brasucas é quase sempre boa no exterior – a não ser por alguns que avacalham e pixam “Comando Brasil” na estação do metro do Porto.

No instante que escrevo esse post, abandono meu país de nascença pela segunda vez. Ao contrário de muitas coisas da vida, a segunda vez que deixa-se “o lar” para trás é mais difícil. Estudei nas aulas de alemão o significado de Heimatland. A professora perguntou à turma o que significaria a palavra. Para mim, Heimatland ainda é Porto Alegre – que, como eu gosto de explicar por aí aos que desconhecem o mapa brasileiro, é a última capital do Estado mais ao sul do Brasil, mais perto de Buenos Aires do que de Brasília!

Eu poderia passar horas listando as diferenças entre o Hemisfério Sul e o Norte. Dizer que Porto Alegre é úmido em relação a Portugal, considerado um dos países menos secos da Europa. Citaria ainda o quão vagabundo é o papel de nossa moeda, pois guardei alguns Reais por um ano em um envelope e eles quase apodreceram – gastei-os logo que finquei os pezinhos na pátria amada mais por nojo do que vontade.

Aliás, fiquei perplexa com os preços brasileiros. Não que tudo esteja caro, mas nós ganhamos muito mal. Enquanto uma pessoa que ganhe o salário mínimo português (450 euros) consegue ter uma vida boa, com pagamento de contas mensais, compras no supermercado, certo esbanjo em supérfulos e viagens sazonais, um brasileiro com 450 reais não pode freqüentar o Mc Donalds semanalmente. Não estou dizendo que o Brasil seja mais caro que a Europa, muito embora em alguns quesitos realmente chegue a ser explorador. Afirmo que aqueles que ganham e gastam em euro têm uma vida melhor do que quem recebe o extrato bancário em Real.

Nessa segunda vez em território português, aterrisso no aeroporto internacional Sá Carneiro e já sei onde fica a estação de metro. Não me perco mais com as moedas diferentes, nem as cédulas de tamanhos diversificados. Sei onde comprar pão, fiambre e ice tea mais baratos. Traço mentalmente qualquer rota dentro do Porto e me sinto familiarizada com outras cidades européias.

Sempre insisto em dizer que morar no exterior não agrega novas experiências. É uma vida completamente nova. Para ter novas experiências, basta ir até a esquina de casa de madrugada ou mudar radicalmente a rotina. Nada tem a ver com morar longe ou lavar a própria roupa. Tentar trocar de Heimatland trata-se de abrir mão de valores antigos e mentalidade ultrapassada para receber um pacote novinho em folha cheio disso – mas em uma linguagem diferente. Resta saber se a tentativa é válida.

2 comentários

Filed under Europa, Porto, Portugal, Vida Portuguesa

2 responses to “Vida Portuguesa II

  1. Felipe

    quero voltar logo para o Porto! nao aguento mais viver nesse canavial no fim do mundo!! =(

  2. [Óh Pah! Tens o dom da escrita. Usufrui mesmo disso] =)

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