Existe vida após Erasmus?

A frase que intitula esse artigo é fruto da tradução de “Is there a life after Erasmus?”. Alguém deve ter dito isso logo no início do programa Erasmus, no tempo que ainda era apenas um intercâmbio de estudantes europeus entre universidades européias, já que hoje abrange outros países. Aliás, a maioria dos brasileiros que se aventura em mobilidade acadêmica pela Europa autodenomina-se “um Erasmus”. Enfim, a idéia pode não ser a mais original de todas, mas agrada a muitos.

Felipe é seguidor desse lema. “Até existe vida após Erasmus, mas não é tão boa”, argumenta. Meu ex-companheiro de casa aterrissou de volta à colônia no último final de semana de fevereiro. Com mais de 365 dias em terras lusitanas – se bem que ele bandeou muito Europa afora -, a primeira coisa que lhe vem à cabeça quando se lembra do Porto é a vontade de voltar. E isso logo acontecerá. Em agosto, Felipe pretende transferir seu curso de Biologia em para a Universidade do Porto em definitivo.

Na cozinha da última residência, com o terno comprado por oito euros, Felipe encarna o dono da Playboy...

Para ele nada mudou no Brasil: “Só os preços estão mais altos, tudo está mais caro”, ressalta Felipe. Fato que também atesto como verdade. Se o Brasil não for o país mais caro do mundo, é pelo menos o com maior inflação – se bem que em África deve ser pior. “Festa aqui tá de 25 reais pra cima! Absurdo! Nem em Stockholm era assim!”, complementa Felipe, acostumado com as baladas gratuitas da ESN e Café Feup.

Felipe ainda ressalta a lerdeza da internet brasileira. “Pensava q a [internet] do Porto era meio zuada às vezes, mas nunca mais eu reclamo. Não carrego um vídeo no Youtube sem travar”, assinala. Para o problema, ainda encontra explicação: “A internet antigamente não era lerda, mas é que tudo ficou mais pesado e daí demora”.

A melhor época de sua vida portuguesa foi o verão. Mas acho que isso é a resposta que pelo menos 90% das pessoas dariam. “Summer of ‘69 lembra aqueles dias que eu ganhava mais dinheiro, tinha um semestre inteiro pela frente e mil planos de viagem”, responde Felipe. Aliás, a música de Bryan Adams calhou muito no verão europeu de 2009. Quarenta anos após o tal verão que deve ter sido especial para Adams, milhares de pessoas cantaram “those were the best days of my life”, inclusive Felipe e eu.

Felipe trabalhou no Porto como desenhista. Fazia desenhos para pesquisadores. Reproduzia especialmente animais marinhos e pássaros. Conheceu cerca de onze países em um ano, sendo que desistiu de uma viagem à Lituânia [por falta de dinheiro], mas marcou presença três vezes na Polônia, seu país europeu preferido.
O vôo de volta foi tranqüilo e com pouco atraso, muito embora ele achasse melhor que fosse cancelado. Parece que havia um aviso de furacão no norte de Portugal, mas nem isso o segurou por lá. Os amigos de Aveiro haviam combinado noite e tudo: “Festa do Furacão”, mas ele não pôde comparecer. “Foi um vento bem forte só, mas não chegou a ser furacão”, lamenta.

Apesar das saudades do Porto, que compartilho com Felipe, receio em dizer que vida de Erasmus é punk do início ao fim. Passar aniversário sozinho, contar moedinhas, abrir o armário e não ter roupa limpa ou nada pra comer é só parte do desafio. “Levei tudo [as malas] sozinho na chuva. Subi as escadas do metro [estação da Lapa] na chuva com aquele peso”, relembra o dia da viagem de volta, quando Felipe encarou chuva e vento com um mochilão nas costas, uma mala na mão direita e outra na esquerda.

O retorno ao Porto, planejado desde antes da partida, tem até roteiro. Nesse semestre, Felipe dispensa o ônibus e vai a pé para a faculdade. O objetivo é economizar R$2,20 por viagem, quase 1,50 euro por dia! “Tô economizando aqui, pois gastar na Europa vale mais a pena”, esquematiza. Felipe tem até planos para o dia em que voltar a Portugal: “[Quando eu chegar] vou ao Piolho tomar Super Bock ou na Ribeira se for segunda-feira!”.

2 comentários

Filed under Brasil, Europa, Portugal

2 responses to “Existe vida após Erasmus?

  1. Ágatha

    Me dá vontade de arriscar hehe..deve ser tão bom🙂

  2. Pingback: Erasmus Erasmus Erasmus eeeee | Vida Portuguesa

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