O ritmo da vida

Odores me lembram lugares. Cores me remetem às estações do ano. O tato me ajuda a identificar cores que não posso ver. Ruídos, tons de voz e barulhos esquisitos com a boca despertam minha atenção ou repugno. Acho que utilizar os sentidos para ativar sensações e memórias é comum para toda a gente. Devo admitir que minha forma preferida de nostalgia não pertence somente a mim.

Tenho uma música para cada amigo. Várias que angariei na Europa. Boas e ruins que descobri durante meu mochilão. As antigas do Brasil, as novas de Portugal. Aquela que tocou três vezes na minha formatura. A outra que eu dancei duzentas vezes no ano passado. A da praia, a de Buenos Aires e a outra lá de um beco qualquer que me meti numa noite obscura.

Canções em português, inglês, tcheco e espanhol, que trazem imagens de volta à cabeça. A letra não tem nada a ver. Talvez o ritmo seja responsável. Minha memória musical é super ativa desde que me conheço como gente.

Nunca vou esquecer o dia que adormeci com um amigo cantando “This is the Life – Amy Macdonald”. Essa foi a música do meu julho de 2009. A vida naquela época era a marquise da janela do meu antigo quarto nas tardes de sol. “Bom Boom Pow – Black Eyed Peas” é da Kelly nas festas Erasmus. As antigas do Bob Sinclair me lembram Ann Sophie, minha amiga francesa. Lamento informar, mas “Sexy Bitch – David Guetta ft. Akon” é a MINHA música. Não que eu seja puta ou extraordinariamente bonita, mas a música é minha e ponto final.

“Summer of ’69 – Bryan Adams” está para Portugal como “Dead & Gone – T.I. ft. Justin Timberlake” está para Varsóvia. “Hotel California – Eagles” pertence à minha mãe. “Numb Encore – Jay-Z e Linkin Park” me remete ao Castelo das Pedras, baile funk carioca. Maroon 5 são os meus primeiros anos de faculdade. “Wake up call” sou eu deitada no sofá da sala de TV às 18h trocando canais. “This Love” sou eu deixando a bolsa no guarda-volumes da biblioteca da PUCRS.

“Infinity – Guru Josh Project” tem dois momentos. O primeiro foi em março de 2009, na varanda da minha antiga casa. Solzinho de primavera ainda tímido, roupas por lavar na máquina e o Windows Media Player com ela no repeat. O segundo momento aconteceu entre a Áustria e a República Tcheca. No ônibus da Student Agency a gente ganha fones e pode ouvir rádio. Em algum lugar entre Viena e Brno, “Infinity” me acordou.

“Daddy Cool – Boney M” é a música da ignorância: “Tu não conhece Boney M, Fernanda?”. Disseram-me que na Europa eles são tão famosos quanto os Beatles. Deve ser exagero. No máximo comparáveis à Abba. Foi por causa dela que recebi o apelido de “don’t-be-crazy-girl”. “Wegue Wegue – Buraka Som Sistema” também só conheci na Europa. É a música do Algarve, bem como “Cré Sabe – Carlos Silva ft. Nelson Freitas” é Piolho em noites de verão.

“Put your records on – Corinne Bailey Rae” lembra-me Luísa, ex-colega de Faculdade. “I’ll be there for you – Bon Jovi” cabe ao Mathias, outro colega. “Istruzione Per I’(ill)uso – Gemelli Diversi” é o postal do William, enviado de Roma, que nunca chegou à minha casa. “Adúlterio – Mc Catra” divide-se entre Mariana Osanai e Aritanã Aquistapasse.

Fim de tarde em Brasília é “Crazy – Gnalrs Barkley”. “Boa Sorte – Vanessa da Mata e Ben Harper” compete ao Rio de Janeiro e seu pôr-do-sol no Arpoador. Dancinhas engraçadas são “Disko Partizani – Shantel”. A polonesa “Lubie mowic z Toba – Akurat” engloba a Europa do Leste. Bebês nascidos em época de socialismo e que agora tomam cerveja comigo em um pub qualquer. Nossa, eu estudei socialismo no colégio e tenho amigos que viveram isso! É informação demais mesmo para uma pessoa que teve coragem de atravessar sozinha o Atlântico.

Todas as noites boas que vivi no segundo semestre de 2009 são “I gotta feeling – Black Eyed Peas”. As combinadas no metro de Varsóvia, no dia em que apostei um sorvete com o Karol, pois achava que Brad Pitt não era o protagonista de “Inglorious Basterds”; os esquentas antes das festas Erasmus no Porto; a viagem para Lisboa em novembro… “I gotta feeling” remete-me ao flash mob no programa da Oprah e ao vídeo feito pelos estudantes da LipDub, Canadá.

“Stereo Love – Edward Maya ft Alicia” tem história. Primeiro porque foi minha mãe quem me reapresentou a música. Digamos que não tem muito a ver seu estilo musical. Ela disse que gostava da tal gaita que toca no refrão. Segundo que eu só lembrei que já a conhecia quando a ouvi de novo.  A primeira vez foi em um pub tcheco, olhando videoclipes em um televisor de plasma. Terceiro porque eu acabei me apaixonando pela música e, quando isso acontece, significa repeat eterno. Assim, surgiu o problema com meus colegas de casa, especialmente o Igor Dentinho. Depois, o Felipe Passos me chamou de ridícula por passar o dia ouvindo isso. Pra completar, traumatizei. Agora só a escuto com fones 🙂 Se bem que ainda pretendo ouví-la em alguma ilha grega… sei lá porquê!

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