Do outro lado do Oceano

Sempre tenho a impressão que estou a viver num universo pararelo. A vida parou no Brasil. Nada acontece por lá. Até porque, quando eu voltar, tudo vai estar da exata maneira como deixei. Aliás, minha mãe sempre diz ao telefone que está tudo igual. Meus pais não compraram nada novo para a casa – talvez a pintura tenha sido refeita, mas isso é apenas um detalhe -, minha irmã insiste em não saber o que vestir para ir a aula, as amigas falam que Porto Alegre continua uma merda, ninguém casou, divorciou ou teve filhos. Mas acho que isso não funciona exatamente desta maneira.

Lembro quando um amigo não muito próximo foi morar em Londres há dois anos. Ele me dizia no msn que não tinha medo sobre o que poderia acontecer no Brasil enquanto ele estivesse fora. “Tudo fica no lugar em que deixamos. Somos nós quem mudamos”, repeti ele com alguma frequência. Quando não nos apegamos aos detalhes ou nos valemos de uma pequena observação sobre nossa “vida antiga”, talvez isso faça sentido e nada se passe de fato. Apesar de que, nem grandes mudanças – no sentido literal da palavra – são capazes de impedir certos acontecimentos.

Quando chove, a avenida Goethe, ao lado do Parcão, ainda deve alagar. O buteco ao lado do Opinião ainda deve vender a cerveja mais barata da Cidade Baixa. Em dezembro, o Papai Noel vai cumprimentar as crianças no shopping Iguatemi. As aulas irão acabar no final de novembro. Minha família viajará para Panambi nas festas de final de ano.

Apesar disso, meu aniversário será comemorado na Europa. Sem Krystal, Duda, Japa, Maira ou Amanda. Já não tenho mais carro próprio quando retornar. A Krystal não estará mais morando no Jardim Planalto. O Edu vai ter se formado em Publicidade. O William agora vive no Rio de Janeiro. Mais do que isso! Às vezes é preciso dar exemplos para nós mesmos entendermos nossas próprias idéias. Como eu já disse em posts anteriores, o que vale nessa vida são os encontros. As pessoas são a chave de tudo. Os lugares… Ah! Esses sempre ficam do mesmo jeito, caso não haja nenhum projeto de planejamento urbano em pauta.

Enfim, eu disse tudo isso só para expressar o sentimento, cujo o qual não sei definir, que sinto no momento. As pessoas passam por nossa vida em alta velocidade, mas sempre deixam uma marca. Digo isso, especialmente ao lembrar de meus amigos da escola. Insisto em dizer que nenhum deles me restou, mas acho que minto para mim mesma. Eles ainda estão no meu entorno, e eu sempre sei – ou tenho uma vaga idéia – do que estão fazendo da vida.

Posso afirmar que quando crianças fazemos amigos realmente verdadeiros. Não há interesses ou vantagens. Às vezes não há reciprocidade. Crianças conseguem ser boas mesmo quando ruins. Debocham uns dos outros, mas, no fundo, gostam-se. Não convidei meus ex-colegas de escola para meus últimos aniversários ou para minha formatura. Porém, eles estiveram, de certa maneira, sempre lá.

Na semana passada fiquei sabendo que um ex-colega está fazendo quimioterapia. Apesar de ser meu dever, como jornalista, de me informar sobre esse tipo de fato para repassá-lo com mais exatidão e detalhes, creio que não esteja apta para tanto no momento. Ainda estou em choque. Não consigo imaginar o porquê de certas coisas acontecerem. Mas ainda instigo em meu íntimo que tudo tem um sentido. Nada nunca é ao acaso.

Mesmo que eu estivesse por perto, talvez não pudesse fazer nada. Digo isso, porque não entendo direito como funciona esse esquema de amizade. Seu melhor amigo sempre vai ser seu melhor amigo mesmo que seu melhor amigo mude? Só sei que, graças a Deus, amizade é mais do que casamento ou namoro. É o melhor dos relacionamentos. Por isso, eu ainda acho que ele é uma das pessoas que mais considero na vida, pois, a certa altura de minha infância/adolescência, o foi.

Do outro lado do Oceano, neste momento, tem gente nascendo, escovando os dentes, acordando, indo pro trabalho, morrendo, discutindo, se amando, chorando, rezando e cantando. Aqui também. Porque somos todos pessoas feitas da mesma porcaria. A diferença é que ainda não consegui conhecer os 6,5 bilhões de habitantes da Terra para perceber todas as pequenas mudanças que acontecem nos hábitos de cada um deles diariamente.

DSCN0031

O outro lado fica depois de toda essa água!

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2 comentários

Filed under Vida Portuguesa

2 responses to “Do outro lado do Oceano

  1. Sandro

    Lindo post! 🙂 Gosto muito do blog, mas sendo português não concordo com tudo aquilo que encontro aqui (os alunos portugueses trabalham sim, dentro e fora das universidades… depende claro do tipo de curso que estão a tirar e da duração… não dá pra comparar o nível de exigência em Medicina e Engenharia com um curso de Educação de Infância ou Psicologia).

    Deixo aqui uma lembrança de uma artista portuguesa… tão portuguesa que era internacional… acho que vai gostar quando bater aquela saudade de Porto Alegre.

    http://www.megaupload.com/?d=NT80CQUV

    🙂

  2. Krystal

    fazia tempo que eu não vinha dar uma conferida no teu blog. amei o post. é verdade, nada muda por aqui, mas a gente muda e é isso que importa.
    Espero te ver antes de tu voltar pra essa cidade onde nada acontece.
    saudades, cabeção
    bjooos

    ps- o edu tá duplamente de mudança, vai abandonar o planalto agora em dezembro e vai pra europa em fevereiro também 🙂

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