Summer of ’09

Eu fiz xixi em Milão. Ok, na verdade foi em Bérgamo, cidade vizinha onde a Ryanair pousa. Posso me gabar também que minha urina circulou pelos esgotos espanhóis, tchecos, eslovacos, austríacos e poloneses. A metáfora é chula, mas trata-se da mais pura verdade sobre viajar. Parte de mim ficou em cada lugar pelo qual passei.

As visitas não contam. Pontos turísticos são comuns no mundo todo. A cena nunca muda. Paisagens extraordinárias, estátuas de celebridades locais, monumentos únicos e asiáticos a fotografar alucinadamente. O que vale mesmo são os encontros.

Não é todo dia que se cozinha para David de Ugarteou se toma mate com um argentino na Espanha. Nem todos tem a chance de viajar acompanhados de um polonês, que consegue ser ao mesmo tempo a pessoa mais cortês e doida que conheci na vida, cujo considero meu irmão. É bom demais rever os amigos tchecos, conhecer suas famílias e animais de estimação.

Comemorei dois aniversários, um canadense e outro polonês. Participei de uma despedida de solteiro italiana. Desenhei um labirinto ferroviário na Polônia. Pedalei, caminhei e nadei no interior da República Tcheca. Testei massagem chinesa em Barcelona e até escalei uma montanha em algum lugar próximo a Široký Důl.

Estação de trem algum lugar entre a República Tcheca e Polônia

Em algum lugar entre a República Tcheca e Polônia

Chorei na torre de TV em Praga, quando enxerguei o mapa mundi e realizei o quão longe de casa estava. Comi coisas que nem sabia serem comestíveis, girassóis, por exemplo. Dancei sem música no meio da rua em Viena e quase recebi “contribuições financeiras” por isso. Pensei todos os dias que não agüentaria o próximo, ora por causa do problema no meu pé, ora pelos inúmeros hematomas que angariei ou das duas vezes que cortei meu dedão esquerdo.

Impossível comer uma só!

Impossível comer uma só!

Descobri músicas novas e cantava em português sempre que possível, para não esquecer minha língua materna. Aprendi tcheco, confundi com polonês e percebi que quando falo alemão não consigo pensar em inglês. Repeti três dias seguidos no momento “Fernanda Filósofa” em Varsóvia que “life sucks”, mas me dei conta nas últimas noites em Brno que o importante é ter – ou fazer – amigos, não importa o quão difícil pareça viver.

Enchi o saco do Karol repetindo ao anoitecer que “I gotta feeling”. Torrei a paciência do Tomáš olhando com cara feia todas as vezes que ele abria o mapa da Morávia e traçava rotas de caminhada e ciclismo. Traduzi músicas para o Lukaš, e ele perguntou se todo hit brasileiro fala de amor. Abracei a Nina milhões de vezes, e ficamos sorrindo uma para a outra sem dizer nada, como fazíamos na sacada do apartamento dela em Portugal. Tenho que agradecer a Kasia pelo remédio polonês que curou – parcialmente e não em definitivo – meu pé. Devo dez Coroas Tchecas para a mãe da colega de quarto da Aneta, pois não tinha mais dinheiro para pagar a bagagem extra.

Espero que meu host em Varsóvia tenha aberto o presente que deixei no sofá antes de pensar que se tratava de lixo. Adorei reencontrar a Asia, que me recebeu como irmã em Wroclaw. Me realizei quando encontramos o Voytaš antes dele buscar a nova namorada na estação de trem. Nunca presenciei nervosismo masculino tão eminente. Os dois se conheceram na Ucrânia, mas ela também é polonesa. Torço para que dê certo. Da mesma maneira que espero que Toni esteja feliz com sua esposa. Aliás, o mais novo casal italiano deve ter retornado da lua-de-mel antes mesmo de eu voltar para o Porto.

Me considero uma pessoa de sorte por contar com um suporte técnico tão eficiente. Eles trabalharam remotamente direto de Portugal, mas são todos brasileiros. Dentinho, Felipe, Babi e Kelly são mais do que família para mim.

Descobri cinco países e onze cidades em 35 dias de viagem. Isto sem contar o tour pela Morávia, região sul da República Tcheca, onde passei por lugares que nem estão no mapa. Sobrevivi. Aprendi. Emagreci, mas engordei de novo. Ultrapassei meus limites além do que deveria. Desmaiei em Madrid. Passei mal no meio da floresta tcheca. Apesar disso, valeu a pena cada segundo, até mesmo aqueles que gastei dormindo em aeroportos, trens ou calçadas.

Lugares sem informações turísticas em inglês são mais divertidos

Lugares sem informações turísticas são mais divertidos

Por isso, grito com toda a certeza do mundo que EU FIZ A MELHOR EUROTRIP DE TODOS OS TEMPOS. Aliás, diga-se de passagem, espero que não tenha sido só xixi que espalhei por aí.

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1 Comentário

Filed under Europa

One response to “Summer of ’09

  1. Adoro seu blog! é demais!!! beijos fer

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