Tomáš

Cinco e trinta e cinco da manhã. Nunca vou me esquecer da hora que abri o celular para enviar a última mensagem. Eu sabia que ele estaria em território português pelo menos até às seis e quinze. Pensei. Depois ponderei. Pensei um pouco mais e decidi escrever em português. Dois minutos depois chega a resposta: “Fala inglés”, escrito exatamente dessa forma. Apelei. Enviei um “I am already missing you”.

Me despedir do Tomáš foi pior do que eu imaginava. Foi mais do perder alguém para sempre. Senti que o tempo e o espaço esvaíram-se por aquele portão de embarque. Poucos minutos depois, estava eu sozinha no mundo novamente, sentada no banco da paragem de autocarro, esperando que alguma coisa qualquer acontecesse.

O conheci no feriado de primeiro de maio. Aqui em Portugal, também tem dia do trabalhador. Na verdade, nos conhecemos de fato no dia dois. Quase chegando em Albufeira, no Algarve, descemos do ônibus para esticar as pernas. Na volta elogiei a jaqueta da Nina, amiga dele. Perguntei onde ela comprara. Me respondeu que na “Czech Republic”. Na hora pensei em largar um piadinha qualquer, do tipo “comprou onde Judas perdeu as botas”, mas preferi não arriscar. Devidamente em seus lugares, arrisquei um palpite: “Are you from Poland?”. Ele e a Nina disseram em coro que não: “We are from Czech Republic”. Agradeci por ter desistido da piada-espírito-de-porco.

Logo que o ônibus partiu, os meninos brasileiros o convidaram para jogar asshole, ou cu, como chamam por aqui, conosco. Fui eleita a vice-cu da partida, mas não me importei muito. Depois daquela primeira noite em Albufeira, veio mais outra. Ao voltar para o Porto, me despedi com um “nice to met you”, talvez a coisa mais engraçada que disse na vida.

Prefiro não calcular, mas acho que passamos pelo menos 45 dias juntos. Muito tempo para quem vive a menos de quatro meses por aqui. Me acostumei a vê-lo quase diariamente e a saber que ele morava aqui pertinho, logo ali no Monte dos Burgos.

Se ele sente saudades de mim, eu não sei. Disse que sentiria. Antes da partida eu larguei um “é triste, muito triste”. Ele respondeu “I will miss you too”. Não foi a primeira vez que tivemos problemas de comunicação, mas é sempre engraçado. Horas depois, quando me ligou de Praga, desabei. Foi triste saber que ele estava de verdade inalcançavel.

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Filed under Vida Portuguesa

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