Terra a vista: O primeiro dia

O início deve ser a parte mais complicada. Talvez por causa da noite mal dormida no avião, a velocidade de raciocínio é afetada drasticamente. Apesar disso, são nas primeiras horas que se passam os maiores apuros em solo desconhecido.

Logo que cheguei no aeroporto Franscico Sá Carneiro me assutei com a movimentação inexistente. Naquele sábado, estava tudo calmo e havia poucas pessoas circulando. Apanhei minhas malas e me fui à maquininha do metro para comprar meu andante. Por €1,45 viajei da estação aeroporto até a Casa da Música, que é um bocado longe, cerca de 22 minutos. Chegando lá, olhei minhas anotações do caderninho verde e procurei pelo autocarro – assim que chamam os ônibus urbanos – que me levaria até a Pousada da Juventude.

Só que quando cheguei à Casa da Música, me informaram erroneamente sobre a localização da paragem. Andei mais de quatro quadras, carregando 50 quilos de bagagem e mais um mochila pesadinha. Detalhe que eu estava congelando, com um casaco fininho, uma blusinha fininha e uma regata fininha. Os dedos congelaram, a garganta começou a doer, o vento cortou meu rosto e, para piorar, eu estava suando, pois as malas eram realmente pesadas demais para mim.

Cheguei a tal paragem e entrei no autocarro, isto é, só consegui entrar porque me ajudaram. O povo português é muito cortês, em especial com estrangeiros. Me disseram que alguns tem “problemas” com brasileiros e não gostam muito. Aqueles que gostam, abraçam a causa literalmente e idolatram o país verde-amarelo. Por mais €1,45 desci na frente do hostel cerca de duas ou três horas depois de ter chegado ao Porto.

A Pousada da Juventude fica na beirada da Foz do rio Douro. É um lugar lindo. Os quartos são ótimos, e o atendimento coloca muito hotel no chinelo. O café da manhã é bom, e há uma cozinha para preparar as outras refeições. Geralmente as pessoas que ali ficam estão só de passagem pela cidade, sendo assim, faz-se muitos “amigos descartáveis”.

A primeira coisa que fiz quando cheguei foi telefonar para casa. O famoso “Mãe, está tudo bem e eu tô viva”. Depois larguei minhas malas no quarto 119 e me fui andar pela cidade. Caminhei bastante até, apesar do frio e da chuvinha fina que me recepcionaram. Não havia uma alma viva nas ruas. Isso dá uma deprê… A pessoa chega sozinha a um país estranho, sai para caminhar em pleno inverno europeu e não vê um ser humano pelas ruas da cidade.

Comprei uma garrafinha de água por €0,12 no Mini-preço – o supermercado mais barato daqui – e segui para o campus da  Universidade do Porto na rua Campo Alegre, que conhecia apenas por fotos até então. Conversei com guardas na Europa. Acho que foram meus primeiros amigos por aqui. Me passaram informações úteis, tais como o horário dos Restaurantes Universitários, uso da internet grátis nos campi, clima, perigos notunos – que não há para as raparigas, segundo o guarda Fernando – e algumas explicações para chegar aos lugares que eu queria.

No caminho para algum lugar – sinceramente, não sei para onde estava indo – encontrei Ewa. Ela é de algum lugar da Europa oriental e ficamos a conversar um pouco na saída do alojamento universitário da Faculdade de Letras. Na segunda-feira encontrei Ewa novamente, na terça também e não paro de encontrá-la… Mas isso é uma coisa legal, por enquanto. Voltei para o hostel logo às 18 ou 19h, pois estava realmente muito frio para andarilhar.

Liguei para casa novamente e dessa vez estavam todos mais calmos. Eu estava vida – e continuo -, então não há muitos motivos para se preocupar. Conheci uns meninos de Santa Catarina na sala de convivência, o que foi a salvação da lavoura para mim. Estava realmente precisando conversar com brasileiros, apesar de esse não ser meu objetivo aqui. Eles estavam a viajar com um grupo do Erasmus da Universidade de Lisboa.

No meu quarto só consegui deduzir que entre minhas companheiras noturnas estaria uma alemã, pois vi uma revista no idioma, e alguém que estivesse aprendendo espanhol, porque havia folhas de estudo em uma pasta. Desci para esquentar o sanduíchezinho que comprei em uma padaria e havia uns alemães na cozinha. Foi lá também que conheci Julia, uma argentina de 76 anos que está dando um giro pelo mundo desde outubro. O máximo. Ela me viu comendo aquele pãozinho, meio tristinha com o frio, e veio com um pratinho de camarões: “Queres un poquito?”. Não tive como recusar. Ela adora cozinhar e estava fazendo macarrão com molho de champignons – bem ruim né? – e veio novamente com um “Coma un poquito, chica”. A chica comeu.

Nesse meio tempo, os tais alemães que estavam bebendo vinho barato  e jogando bate-bate – ou jogo do tapa, acho que chama – ficaram de ouvido na nossa conversa e eu imaginei que eles deveriam estar entendendo alguma coisa. De cara deduzi: São as alemãs do meu quarto e elas estudam espanhol. Dito e feito. Tratavam-se de quatro meninas e dois meninos, estudantes de español em Salamanca. Ficamos a conversar um tantinho e respondi algumas perguntas sobre o Brasil – todos querem saber do carnaval carnaval carnaval -, enquanto comia a jantinha da Julia – que teve reprise na noite de segunda-feira.

Para fechar meu primeiro dia em solo português, bati um papo em alemão-espanhol-português-inglês com uma das alemãs que não foi para a balada com os outros, pois estava doente. Eu, podre de cansada do jeito que estava, nem cogitei aceitar o convite. Acordei pelas duas da manhã com o barulho das meninas que chegaram. Nada demais. Esatava tão cansada que devo ter voltado a dormir segundos após.

Não me animei a fotografar no primeiro dia. A chuva, o frio e o cansaço me desanimaram. Também não havia muito a registrar. Não gosto desse estilo “turistona” de fotografar monumento histórico, museu, estátua e coisas do gênero. Minha primeira foto aconteceu no domingo, mas isso é texto para outro post.

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